domingo, 15 de setembro de 2013

A juventude da maturidade (Martha Medeiros)


-Feliz aniversário!

Foi só ela ouvir essa frase e virou o rosto como se estivesse sendo agredida.

– Não repita isso de novo. Não sei o que há de feliz em ficar mais velha.

Respondi:

– Você diz isso porque está fazendo 34 anos. Quando fizer 52, vai sentir vontade de pendurar balões pela casa.

Ela desvirou o rosto e voltou a me encarar como se eu estivesse tendo algum surto de insanidade.

– ÃHN?.

Só quem atravessa ao menos cinco décadas de vida pode entender a bênção que é entrar na segunda juventude. Claro que antes é preciso passar pelo purgatório. Poucos chegam aos 50 anos sem fazer uma profunda reflexão sobre a finitude, e dá um frio na barriga, claro. Amedronta principalmente quem ainda não fez nem metade do que gostaria de já ter feito a essa altura. Será que vai dar tempo?

Passado o susto, a resposta: vai. E se não der, não tem problema. Você não precisa morrer colecionando vontades não realizadas. Troque de vontades e siga em frente sem ruminar arrependimentos. Você finalmente atingiu o apogeu da sua juventude: é livre como nunca foi antes.

Então, não passe mais nem um dia ao lado de alguém que lhe esnoba, lhe provoca, que não se importa com seus sentimentos. Pare de inventar razões para manter seus infortúnios, você já fez sacrifícios suficientes, agora se permita um caminho mais fácil. Se ainda dá trela a fantasmas, se ainda pensa em vingancinhas ordinárias, se ainda não perdoou seus pais e seu passado, se ainda perde tempo com vaidades e ambições desmedidas, se ainda está preocupado com o que os outros pensam sobre você, está pedindo: logo, logo virará um caco.

Para alcançar e merecer a segunda juventude, é preciso se desapegar de todas aquelas preocupações que havia na primeira. Quando essa Juventude Parte 2 terminar, não virá a Juventude Parte 3, mas o fim. Ou seja, esta é a última e deliciosa oportunidade de abandonar os rancores, não perder mais tempo com besteiras e dar adeus à arrogância, à petulância, à agressividade, ou seja, adeus às armas, aquelas que você usava para se defender contra inimigos imaginários. Agora ninguém mais lhe ataca, só o tempo – em vez de brigar contra ele, alie-se a ele, tome o tempo todo para si.

Eu sei que você teve problemas, e talvez ainda tenha – muitos. Eu também tive, talvez não tão graves, depende da perspectiva que se olha. Mas isso não pode nos impedir a graça de sermos joviais como nunca fomos antes. Lembra quando você dizia que só gostaria de voltar à adolescência se pudesse ter a cabeça que tem hoje? Praticamente está acontecendo.

Essa é a diferença que tem que ser comemorada. Na primeira juventude, tudo vai acontecer. Na segunda, está acontecendo.

sábado, 7 de setembro de 2013

Pequenas gentilezas (Leticia Carneirto da Silva)


Já falei de gentileza e sou fã do bordão. Recentemente descobri a caçula desta família. A gentileza pequenininha, aquela que muitas vezes só você sabe que está fazendo.

E dentro da minha busca de passos menores, de caber dentro de um mundo mais sereno e contido, virei fã desta nova possibilidade.
Falei mais cedo de ajudar estranhos. A pequena gentileza é boa em qualquer situação, ainda mais preciosa com quem anda junto com a gente há bastante tempo, quando o desgaste do dia a dia já se instalou...
A pequena gentileza é aquela que vem de pequenos desapegos. Por exemplo, eu sistematicamente tenho oferecido o maior ou último pedaço para o outro. Agradeço por tudo na rua. Até pelo óbvio. Até pelo que é mínimo esperado de educação. Se alguém me dá espaço na rua (mesmo sendo um ciclista contraventor em plena calçada), eu agradeço. Estou banindo do meu vocabulário “não é mais do que sua obrigação”. Porque, afinal, quase ninguém hoje se sente obrigado á cortesia portanto este é bem precioso que há de se valorizar.
Também tenho me esforçado dentro de casa. Geralmente a intimidade propicia uma economia de formalidades. Pedir licença, por favor, agradecer. Não vamos nem falar das famosas brigas por toalhas molhadas na cama, calcinha no banheiro, pasta de dente apertada no meio, tábua levantada e ... Bom , você entendeu.
Por isso me esforço, do alto de 17 anos de vida em comum, para dizer obrigada, oferecer um copo d’água gelado no dia quente. Ainda estou em processo, mas caminhamos.
Gentilezas miudinhas, aquelas em que você tem uma escolha dentro da sua cabeça: “Eu ou ele”? E escolhe ele. O outro.
Gentileza também é desconversar quando viu que tocou num assunto delicado, destes molhadores de olhos. É não comentar se o cabelo novo não é do seu gosto (agradeço a todos que não gostaram do novo visual mas não confessaram!). É também avisar que o zíper está aberto, o dente está verde de couve ou vermelho de batom. Que a saia ficou presa na calcinha.
São pequenas, singelas homenagens e carinhos, pois a vida já é bem cheia de arranhões e tropeços. 

sábado, 17 de agosto de 2013

Um mergulho no oceano (Martha Medeiros)



  • A última vez que entrei numa sala de aula foi no último dia da faculdade, e lá se vão muitas luas, parece que foi em outra vida. Fazia tanto tempo que eu não era estudante que fiquei apreensiva ao me matricular na The London School of English, de onde retornei semana passada. Haveria quantos alunos por sala? Ainda existe giz e quadro-negro? E sendo eu uma analfabeta digital, passaria vergonha levando um caderno e uma caneta para anotações?

    Éramos poucos em cada sala – no máximo oito, entre tchecos, russos, japoneses, italianos, espanhóis e brasileiros. O quadro negro agora é um quadro branco onde se escreve com marcadores coloridos (para os saudosistas, vale uma visita à Saatchi Gallery, que expõe antigos quadros-negros das mais famosas universidades do mundo – Cambridge, Harvard, Oxford – extraindo de nós um novo olhar para o efeito das frases, fórmulas e gráficos rabiscados a giz). E a analfabeta digital não passou vergonha com seu caderno e caneta, mesmo cercada por colegas equipados com tablets e laptops. Não conheço recurso mais eficiente para reter e decorar informações do que escrevê-las à mão. Fiquei impressionada ao ver que alguns alunos fotografam o quadro antes de o professor apagá-lo. Não copiam, simplesmente fotografam com seus celulares. Eu sempre aprendi mais escrevendo, sublinhando, fazendo círculos em torno das palavras, enchendo a página de flechas e asteriscos. Meu caderno ainda vai acabar sendo exposto numa mostra de design.

    O mais valioso da experiência foi resgatar o prazer inocente de aprender. Cada nova palavra, cada nova expressão era uma vitória particular que eu assimilava com humildade. A minha vergonha em falar um idioma que não domino, e ao mesmo tempo a disposição em me divertir com os próprios erros, me tornavam uma aprendiz de mim mesma e da vida, essa venerável mestre.

    Algumas pessoas se satisfazem com o que já sabem, é como se seu conhecimento coubesse numa piscina. Dão algumas braçadas para um lado, outras braçadas para o outro, agarram-se às bordas e tocam o fundo com os pés: sentem-se seguras nessa amplitude restrita. Mas nada como mergulhar num mar do conhecimento sem fim, onde não há limites, a profundidade é oceânica e a ideia é nadar sem chegar à terra firme, simplesmente manter-se em movimento. Cansa, mas também revitaliza. Pena que nossa preguiça impeça a grandeza de se descobrir algo novo todos os dias.

    Eu, que além de apegada aos instrumentos rudimentares da escrita, tenho certo receio de procedimentos estéticos em geral, descobri uma maneira de me manter jovem para sempre, mesmo que, olhando, ninguém diga: não vou mais parar de estudar e assim realizarei a utopia de me sentir com 20 anos até os 100 – depois disso, aí sim, recreio.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

As chatonildas (Martha Medeiros)


  • Sou gamada pelos filmes Antes do Amanhecer e Antes do Pôr do Sol. Ambos, na época, me inspiraram crônicas, e não seria diferente com a obra que encerra a trilogia, Antes da Meia-Noite, a maior DR cinematográfica recente. Não tão bom quanto os filmes anteriores, mas bom também, agora o casal protagonista, Jesse e Celine, enfrenta uma crise conjugal clássica. Qualquer pessoa que tenha vivido uma relação de mais de um ano – vá lá, dois anos – já protagonizou cenas quase idênticas. Somos todos iguais, o que me estarrece, visto que a charmosa Celine, que conquistou aquele guapo no primeiro filme da série e o fez perder o rumo de casa no segundo, se transformou na Maior Chata da História, assim mesmo, com maiúsculas. E o que é pior: essa Maior Chata da História, socorro, é meio parecida conosco.

    Celine pira. Faz perguntas inibidoras para o marido, numa tentativa de encurralá-lo nas próprias palavras. Busca sempre alguma entrelinha por trás do que o coitado do marido ousou falar. Tira conclusões estapafúrdias pela própria cabeça, faz drama por qualquer bobagem, não sabe se vai ou se fica. É o capeta travestido de mulher. Se você já assistiu ao filme, duvido que não tenha se identificado com pelo menos 10 minutos da histrionice da personagem, e estou sendo generosa, poderia tranquilamente falar aqui em identificação de meia-hora – ainda sendo generosa.

    Não que os homens sejam santos. Eles azucrinam. São eternos garotos de 12 anos que não crescem, a síndrome de Peter Pan segue firme e forte. Ainda assim, nada justifica nossa aporrinhação. Mulher é bicho tremendamente chato. Umas mais, outras menos. Rogo a Deus que eu esteja entre as menos. Por via das dúvidas, não perguntem aos meus ex.

    O que nos absolve (um pouco) é que a intenção é das melhores: só queremos limpar a área, clarear os problemas. Falamos, falamos, falamos, mas no fundo sonhamos com a paz do entendimento. Por isso, não nos cobrem, não nos façam de tolas, não nos sobrecarreguem: entendam que a paciência esgotou, não somos as mães universais, as eternas boazinhas e compreensivas, isso já deu. Mas precisamos transmitir esse nosso “deu” com menos verborragia, concordo.

    Pra não terminar essa crônica ressaltando apenas a chatice feminina, destaco uma frase do filme que aponta uma saída. Diz um personagem secundário: “o amor que sentimos por alguém não é o mais importante, o que interessa é o amor que sentimos pela vida”. Sábias palavras. Se o casal concorda que a vida é breve e merece ser apreciada com alegria e generosidade, sem valorização das encrencas, sem perpetuar traumas de infância, sem pensamentos estreitos, sem nenhuma espécie de rigidez, a relação poderá vir a ser um passeio no campo. Ame a vida, e meio caminho andado para um romance leve.

    Mas, claro, ajudará muito se nós, garotas, controlarmos a nossa doidice nata.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Anjos (Martha Medeiros)


  • Fala-se muito em Deus, mas pouco em anjos. Acredito neles, nos zelosos guardadores, não sentados em nuvens tocando trombeta, mas aqui, no plano terreno. Um pode ser o anjo do outro. Você pode ser meu anjo, e eu o seu.

    Vou compartilhar uma história que aconteceu no final de fevereiro. Recebi um convite para integrar a equipe de uma instituição britânica liderada pelo filósofo e escritor Alain de Botton, a The School of Life, que está introduzindo atividades no Brasil. Topei. No entanto, meu inglês é precário. Consigo viajar sem pagar micos, me comunico em hotéis e restaurantes, mas não tenho fluência para manter uma conversa digna com um estrangeiro, e isso será fundamental no novo desafio profissional que me surgiu. Preciso aprender inglês pra ontem. Como? De preferência, estudando fora, fazendo um curso de imersão. Até então, isso nunca tinha passado de um sonho da juventude.

    Dias depois de a The School of Life me procurar, recebi outro convite: lançar meus livros numa cidade litorânea do Rio Grande do Sul. Passei quase três horas autografando para veranistas e moradores de Torres. Quando a livraria estava fechando a porta, um homem insistiu em entrar. Um turista. Ele pediu uma dedicatória, a última da noite, e me entregou seu cartão. Era, simplesmente, um renomado gestor de cursos de inglês no Exterior. O procurei na semana seguinte e, para encurtar a história, estou matriculada em uma das escolas mais sérias da Inglaterra, já tenho um flat alugado e estou com toda a burocracia resolvida. De quebra, fiz um novo amigo.

    Esse tipo de história é recorrente na minha vida. Qualquer questão que se apresente, a solução cai do céu em dias, às vezes em horas, através de alguém que não conheço. O exemplo que dei é elitista, mas já aconteceram coisas bem mais prosaicas e milagrosas – nunca me apertei. Sempre um anjo apareceu do nada.

    Pode-se chamar isso de ter sorte, ou uma boa estrela. Dá no mesmo. Estamos falando de receptividade e de doação. Você tem um anjo porque também já foi o anjo de alguém. E se tudo não passar de baboseira, que seja. Num mundo rude como o nosso, há que se flertar com o esotérico.

    No momento em que você me lê, já estou em Londres. Segunda-feira começam minhas aulas e não vai ser moleza: serão seis horas por dia, afora os temas de casa e alguns compromissos com a The School of Life, a entidade que deu início a essa minha movimentação. Os textos que você lerá nos próximos domingos foram previamente entregues no jornal, e é provável que eu não consiga responder todos os e-mails como vinha fazendo até aqui. Prometo retornar em agosto mais inspirada e com histórias interessantes para contar dessa experiência. Enquanto isso, fique com os anjos.