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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Metáforas ardentes (Geraldo Hasse)

Escrever é pastorear palavras,
da aurora à insônia,
sem descanso.

Nesse ofício,
há quem viva na abastança,
senhor de largos rebanhos,
latifundiário de letras preferenciais ao portador.

A maioria vive à míngua,
forçada a caçar palavras
abaixo da linha da pobreza
onde vicejam as flores negras da miséria.

Criador remediado, graças a Deus,
um pé na roça, outro na cidade,
todos os dias levo minhas parcas idéias
à estância da fantasia
em busca do essencial:
ar puro, seiva verde, alguma flor e os frutos da estação.

As idéias se nutrem ou não,
tanto faz, o que importa
é atravessar o campo,
sem cercas nem porteiras,
no tempo líquido e certo, enquanto há luz o horizonte.

Ao anoitecer as conduzo,
mansas ou ariscas,
saciadas ou famintas,
mas sempre cansadas,
ao aprisco inglório: a lata de lixo da história.

domingo, 24 de julho de 2011

Poesia (Viviane Mosé)

Prosa Patética (Viviane Mosé)

Nunca fui de ter inveja, mas de uns tempos pra cá tenho tido.
As mãos dadas dos amantes tem me tirado o sono.
Ontem, desejei com toda força ser a moça do supermercado.
Aquela que fala do namorado com tanta ternura.
Mesmo das brigas ando tendo inveja.
Meu vizinho gritando com a mulher, na casa cheia de crianças,
sempre querendo, querendo.
Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.
Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.
Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região.
No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança
do hálito quente do outro. A voz, o viço.
Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,
expulsar de mim essa Nossa senhora ciumenta.
Madona sedenta de versos. Mas tive medo.
Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito.
Ausência de espelhos que dissolve a falta, a fraqueza, a preguiça.
E me faz vento, pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.
Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,
onde tudo é grave e único. E me mantive quieta e muda.
E mais do que nunca tive inveja.
Invejei quem tem vida reta, quem não é poeta
nem pensa essas coisas. Quem simplesmente ama e é amado.
E lê jornal domingo. Come pudim de leite e doce de abóbora.
A mulher que engravida porque gosta de criança.
Pra mim tudo encerra a gravidade prolixa das palavras: madrugada, mãe, ônibus, olhos, desabrocham em camadas de sentido,
e ressoam como gongos ou sinos de igreja em meus ouvidos.
Escorro entre palavras, como quem navega um barco sem remo.
Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio.
Clarice diz, que sua função é cuidar do mundo.
E eu, que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada,
não tenho bons modos nem berço.
Que escrevo num tempo onde tudo já foi falado, cantado, escrito.
O que o silêncio pode me dizer que já não tenha sido dito?
Eu, cuja única função é lavar palavra suja,
nesse fim de século sem certeza?
Eu quero que a solidão me esqueça.


Receita pra lavar palavra suja

Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza. Por exemplo a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar
e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.
Agora nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,
que é capaz de esvaziar o vigor da língua.
O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer
é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente
sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo neste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo,
a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo,
sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode,
o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite,
não a seu lado mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela,
então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.


domingo, 17 de julho de 2011

Carlos Drummond de Andrade

                          No céu também há uma hora melancólica.
                    Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
                    Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
                    e se responde: Não sei.
                    Os anjos olham-no com reprovação,
                    e plumas caem.
                     Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor
                     caem, são plumas.
                     Outra pluma, o céu se desfaz.
                     Tão manso, nenhum fragor denuncia
                     o momento entre tudo e nada,
                     ou seja, a tristeza de Deus.

                  

domingo, 10 de julho de 2011

Um poema: Emily Dickinson

Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade
Era depositado no carneiro contíguo.

Perguntou-me baixinho o que me matara:
--A beleza, respondi.
--A mim, a verdade -- é a mesma coisa,
Somos irmãos.

E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo,
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Balada do ser errante (Mônica Montone)


Depois de um tempo você descobre que sua vida não passa de uma farsa
Que tudo o que você fez ou faça
É tão somente para ser bem visto e bem quisto pelos outros

Descobre que sua necessidade de trabalhar 20h por dia
Nada mais é do que um pretexto para se esquivar da própria agonia
Da terrível e temível sensação
De não ser aceito
Não ser perfeito

Descobre que até as roupas que USA
São escolhidas por você como um passaporte
Um cartão de ouro
Capaz de abrir as portas do matadouro social

Descobre que alguns amigos estão a seu lado
Não por admiração ou carinho
Mas porque você se esforça para ser especial
E porque eles podem lucrar algo
Nem que seja um telefonema no natal
Um cartão postal de viagens invejadas

Descobre que as pessoas não o conhecem
E não tem a menor idéia de quem você seja
Mas que no fundo elas não têm culpa disso
Pois foi você quem sempre fingiu ser o que não era

Depois de um tempo
Você descobre que nada disso faz sentido
Mas como está distante de tudo o que realmente é importante
Já não consegue voltar atrás!
Vive seus dias como um ser errante
À espera de um “milagre”:
Casamento, parceiro, dinheiro, emprego, filhos, felicidade

E enquanto a cidade se agita
Sozinho, no ninho
Você grita
E sente as dores de um parto que jamais aconteceu:
O seu!!!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Poemas (Paulo Leminski)

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem


Acordei bemol
Estava tudo sustenido
Sol fazia
só não fazia sentido

quando eu vi você tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse mil faces num só instante
basta um instante e você tem amor bastante

"a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa"


Amor, então também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
Que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima

"moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia.

"Minha mãe dizia:
-ferve água
-frita ovo
-pinga pia
e tudo obedecia."



Vazio agudo
Ando meio
Cheio de tudo



- que tudo se foda,
disse ela,
e se fodeu toda.

não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno

eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos

quem sou eu para falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus



pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando






o amor, esse sufoco,
agora há pouco era muito,
agora, apenas um sopro

ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
e socos.



GARDÊNIAS E HORTÊNSIAS
NÃO FAÇAM NADA QUE ME LEMBRE
QUE A ESTE MUNDO EU PERTENÇA
DEIXEM-ME PENSAR
QUE TUDO ISSO NÃO PASSA
DE UMA TERRÍVEL COINCIDÊNCIA


Nesta vida, pode-se aprender
três coisas de uma criança:
estar sempre alegre,
nunca ficar inativo e
chorar com força por tudo o que se quer


"nunca sei ao certo
se sou um menino de duvidas
ou um homem de fé

certezas o vento leva
só as duvidas continuam em pé"


"Onde é que nós estamos
que já não reconhecemos os desconhecidos?"


sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa


cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face




quatro dias sem te ver
e não mudaste nada
falta açúcar na limonada
me perdi da minha namorada
nadei nadei e não dei em nada
sempre o mesmo poeta de bosta
perdendo tempo com a humanidade


duas folhas na sandália...
o outono também quer andar..



"Haja hoje para tanto ontem."

aqui...
nessa pedra
alguem sentou
olhando o mar
o mar não parou
para ser olhado...
foi mar pra tudo quanto é lado.


en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas



segunda-feira, 9 de maio de 2011

Pedro Salinas, poeta espanhol


"Para vivir no quiero
islas, palacios, torres.
¡Qué alegría más alta:
vivir en los pronombres!
     
Quítate ya los trajes,
las señas, los retratos;
yo no te quiero así,
disfrazada de otra,
hija siempre de algo.
Te quiero pura, libre,
irreductible: tú.
Sé que cuando te llame
entre todas las gentes
del mundo,
sólo tú serás tú.
Y cuando me preguntes
quién es el que te llama,
el que te quiere suya,
enterraré los nombres,
los rótulos, la historia.
Iré rompiendo todo
lo que encima me echaron
desde antes de nacer.
Y vuelto ya al anónimo
eterno del desnudo,
de la piedra, del mundo,
te diré:
«Yo te quiero, soy yo».

A Arte de Amar (Manuel Bandeira)

"Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não."