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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ah, ser somente o presente (Ferreira Gullar)


Confesso que sofrer não é a minha vocação, embora nem sempre consiga escapar do sofrimento

Muito embora alguns de meus poemas falem do passado, viver no passado ou tê-lo presente no meu dia a dia não me agrada. Na verdade, todos nós somos o que vivemos e, de certo modo, o passado constitui também o nosso presente, quer o lembremos ou não. Mas, precisamente porque somos o que vivemos, trazemos conosco lembranças muitas vezes dolorosas, que de repente emergem no presente. Disso, creio que ninguém gosta, à exceção dos masoquistas.
Para falar com franqueza, confesso que sofrer não é a minha vocação, embora nem sempre consiga escapar do sofrimento. Se puder, escapo. Creio mesmo que a vocação do ser humano (de todo ser vivo?) é a felicidade.
Isso é o que todos buscamos, na comida que saboreamos, na bebida que sorvemos, nos momentos de amor, no carinho, na amizade e na alegria de fazer o outro feliz. Sofrer, não. Só quando não tem jeito e a lembrança do passado é quase sempre sofrimento: ou porque voltamos a sentir a dor de outrora, ou porque relembramos a felicidade que houve e se foi para nunca mais.
Por isso foi que, certa manhã, ao entrar na sala vindo do quarto de dormir, deparei-me com o sol matinal que a invadia e me senti feliz como nunca. Nenhum passado, nenhuma lembrança. Eu era ali, então, um bicho transparente, mergulhado na luz matinal. E escrevi estes versos:
"Ah, ser somente o presente, esta manhã, esta sala".
Essa é uma aspiração certamente impossível de realizar, mas a poesia é, entre outras coisas, viver, com a ajuda da palavra, o impossível, já que aspirar apenas ao possível não tem graça. Pois bem, houve gente que leu esses versos e não apenas gostou deles como concordou com aquela aspiração irrealizável. Essa de que o passado já era.
Mas eis que estou caminhando pela avenida Atlântica quando vem a meu encontro um senhor de óculos, barba e cabelos quase inteiramente brancos.
- Gullar, meu querido, quantos anos faz que a gente não se vê! Lembra daquele dia, na Redação da "Manchete", quando o Adolpho Bloch só faltou te agredir?
- Me agredir, é? -falei por falar, já que não sabia quem era aquele sujeito que me abordara assim de repente. E ele continuou:
- Você tinha aparecido na televisão, de barba por fazer e sem gravata, falando em nome da revista, o que deixou o Adolpho furioso.
E acrescentou:
- Mas acho que você não está me reconhecendo... Eu sou o Hélio, o fotógrafo.
Só então me lembrei dele. Tínhamos sido amigos e não fui capaz de reconhecê-lo.
- Você pegou um cinzeiro, ia bater com ele na cara do Adolpho e fui eu que te arrastei para fora da Redação, lembra?
A verdade é que nunca fui muito bom de memória. Quando voltei do exílio, uma atriz famosa e linda, companheira na luta contra a ditadura, desceu do carro no meio da rua, em Ipanema, para vir me abraçar. Dois meses depois, estou lançando um livro e ela para em minha frente para que eu lhe autografe o livro, e o nome dela some de minha mente. Entro em pânico. Não poderia perguntar-lhe o nome depois daquele abraço efusivo em plena rua.
A solução que encontrei foi me levantar, sair da livraria, atravessar correndo a rua, entrar no boteco em frente, perguntar à Teresa o nome da atriz e voltar. Sentei-me de novo, ela me olhou sem entender nada. Escrevo, então, no livro: "Para Norma Bengell...".
Com o passar dos anos, a coisa foi ficando pior. Outro dia, combinei com a Cláudia que iríamos ao cinema. Escolhi o filme, marquei para nos encontrarmos lá mesmo, cheguei antes, comprei as entradas (uma inteira e uma meia, que eu sou idoso) mas, quando o filme começou, ela falou revoltada: "Você ficou maluco? Esse filme nós já vimos!". E eu: "Você está brincando!". "Eu, brincando!? Você é que está maluco! Não faz nem um mês que vimos este filme!"
Realmente, após minutos, constatei que já o havíamos visto. Assim está minha memória: tudo o que vejo, leio, ouço ou faço logo esqueço. Não tenho mais passado. Aquilo que escrevi no poema virou verdade: tornei-me apenas o presente, esta manhã, esta sala.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O jogo dos acasos (Ferreira Gullar)


É que viver é assim: o acaso promove os encontros e a necessidade os integra em nossa vida ou não

Foi por acaso que Valdomiro veio a se chamar Valdomiro, já que, por decisão da mãe, ia chamar-se Valdir. Sucedeu que o pai, a caminho do cartório onde faria o registro de seu nascimento, em vez de seguir por uma rua, seguiu por outra e, nessa, deparou-se com a seguinte pichação num muro: "Vote em Valdomiro, amigo dos pobres".
Foi o bastante para mudar de ideia e pôr no filho o nome do político que admirava. Mas não disse nada a sua mulher, que ficou chamando Valdomiro de Valdir até o dia em que descobriu o engano. E foi também por acaso que, em vez de estudar sanitarismo, estudou contabilidade, matéria em que se formou e passou a ganhar a vida.
"Meu sonho era ser sanitarista, mas o professor que ensinava essa matéria morreu no dia mesmo em que me matriculei no curso, que foi cancelado temporariamente. Como Jorginho, meu primo, havia escolhido estudar contabilidade, segui a sugestão dele e, assim, me tornei contador", contou ele certa vez.
Não menos inesperado foi seu encontro com a moça que se tornaria sua mulher. Aconteceu numa festa de São João, numa cidade vizinha; festa à qual não iria até que a família inteira seguiu para lá. De má vontade concordou em ir somente porque não queria ficar sozinho em casa. Pois bem, ali conheceu Julinha, que também não era da cidade e só foi a convite de uma irmã. Amor à primeira vista, pois já se despediram com encontro marcado para a semana seguinte, na cidade dele.
Pois é, mas isso não teria maiores consequências se com ela não houvesse ocorrido um fato que viria precipitar seu namoro com Valdomiro: rompera recentemente um noivado que já durava vários anos, devido a suas hesitações. Poucos meses antes de conhecer Valdomiro, tomara coragem e rompera: "Eu gostava dele como amigo, mas não para ser meu marido".
Foi um escândalo nas duas famílias, na dela e na do noivo, que já se tinham como uma só. Para livrar-se do incômodo que essa situação lhe causava, passou a viajar sempre que podia, mesmo que fosse para passar apenas alguns dias distante daquilo. A decisão de casar-se com Valdomiro foi certamente um modo de pôr fim àquela situação. É que viver é assim mesmo: o acaso promove os encontros, e a necessidade os integra em nossa vida ou não. Isso significa que, naquelas circunstâncias, ela se casaria com qualquer um? Não se sabe. A verdade é que com Valdomiro ela se casou.
E mudou a vida dele que, de fato, não estava à procura de uma mulher. Ou, se estava, não se tinha dado conta, mesmo porque, muitas vezes, são os acontecimentos que nos revelam o que estávamos buscando sem o sabermos. A ida do casal para o Rio foi facilitada por um tio de Julinha, que tinha uma firma de representação na rua da Alfândega. Esse tio arranjou para Valdomiro fazer alguns bicos, ora na sua própria firma -que não era grande-, ora em outras que negociavam com ele.
Valdomiro alugou um pequeno apartamento no Catete, e Julinha conseguiu um emprego num salão de beleza ali perto. Aos domingos, pegavam o metrô e iam à praia de Copacabana tomar banho de mar.
E foi na praia que ele conheceu um cara simpático, com quem passou a jogar frescobol e que o convenceu a fazer um curso de aperfeiçoamento profissional para conseguir um emprego numa firma importante que lhe pagasse bem e onde pudesse fazer carreira. O curso era noturno e dado num edifício do centro da cidade, próximo ao Theatro Municipal, mais precisamente no edifício Liberdade, que ficava na rua 13 de Maio, 44. As aulas começariam dali a um mês.
Acertou tudo, a primeira aula seria no dia 25 de janeiro. Mas aquele foi um dia estafante e, se dependesse de sua vontade, ficaria em casa, deitado no sofá, vendo televisão. Chegou a dizer isso a Julinha, mas ela, que via naquele curso um caminho para melhorarem de vida, convenceu-o a ir à tal aula.
Vestiu-se e saiu para tomar o metrô que o levaria à estação Cinelândia, próxima à rua 13 de Maio, mas tamanho era seu cansaço que adormeceu e só foi acordar na estação Uruguaiana. Ansioso, tomou o trem de volta e desceu no Largo da Carioca, no momento exato em que o prédio para onde ia desabava.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Um sonho que acabou (Ferreira Gullar)


Nenhum defensor do regime cubano desejaria viver num país de onde não se pode sair sem permissão

É com enorme dificuldade que abordo este assunto: mais uma vez -a 19ª- o governo cubano nega permissão a que Yoani Sánchez saia do país. A dificuldade advém da relação afetiva e ideológica que me prende à Revolução Cubana, desde sua origem em 1959. Para todos nós, então jovens e idealistas, convencidos de que o marxismo era o caminho para a sociedade fraterna e justa, a Revolução Cubana dava início a uma grande transformação social da América Latina. Essa certeza incendiava nossa imaginação e nos impelia ao trabalho revolucionário.
Nos primeiros dias de novo regime, muitos foram fuzilados no célebre "paredón", em Havana. Não nos perguntamos se eram inocentes, se haviam sido submetidos a um processo justo, com direito de defesa. Para nós, a justiça revolucionária não podia ser questionada: se os condenara, eles eram culpados.
E nossas certezas ganharam ainda maior consistência, em face das medidas que favoreciam aos mais pobres, dando-lhes enfim o direito a estudar, a se alimentar e a ter atendimento médico de qualidade. É verdade que muitos haviam fugido para Miami, mas era certamente gente reacionária, em geral cheia da grana, que não gozaria mais dos mesmos privilégios na nova Cuba revolucionária.
Sabíamos todos que, além do açúcar e do tabaco, o país não dispunha de muitos outros recursos para construir uma sociedade em que todos tivessem suas necessidades plenamente atendidas. Mas ali estava a União Soviética para ajudá-lo e isso nos parecia mais que natural, mesmo quando pôs na ilha foguetes capazes de portar bombas atômicas e jogá-las sobre Washington e Nova York. A crise provocada por esses foguetes pôs o mundo à beira de uma catástrofe nuclear.
Mas nós culpávamos os norte-americanos, porque eles encarnavam o Mal, e os soviéticos, o Bem. Só me dei conta de que havia algo de errado em tudo isso quando visitei Cuba, muitos anos depois, e levei um susto: Havana me pareceu decadente, com gente malvestida, ônibus e automóveis obsoletos.
Comentei isso com um companheiro que me respondeu, quase irritado: "O importante é que aqui ninguém passa fome e o índice de analfabetismo é zero". Claro, concordei eu, muito embora aquela imagem de país decadente não me saísse da cabeça.
Impressão semelhante -ainda que em menor grau- causaram-me alguns aspectos da vida soviética, durante o tempo que morei em Moscou. O alto progresso tecnológico militar contrastava com a má qualidade dos objetos de uso. O que importava era derrotar o capitalismo e não o bem-estar e o conforto das pessoas. Mas os dirigentes do partido usavam objetos importados e viam os filmes ocidentais a que o povo não tinha acesso.
Se a situação econômica de Cuba era precária, mesmo quando contava com a ajuda da URSS, muito pior ficou depois que o socialismo real desmoronou. É isso que explica as mudanças determinadas agora por Raúl Castro.
Mas, antes delas, já o regime permitira a entrada de capital norte-americano para construir hotéis, que hoje hospedam turistas ianques, outrora acusados de transformar o país num bordel. Agora, o governo estimula o surgimento de empresas capitalistas, como o faz a China. Está certo desde que permita preservar o que foi conquistado, já que a alternativa é o colapso econômico.
Tudo isso está à mostra para todo mundo ver, exceto alguns poucos sectários que se negam a admitir ter sido o comunismo um sonho que acabou. Mas há também os que se negam a admiti-lo por impostura ou conveniência política.
Do contrário, como entender a atitude da presidente Dilma Rousseff que, em recente visita a Cuba, forçada a pronunciar-se sobre a violação dos direitos humanos, preferiu criticar a manutenção pelos americanos de prisioneiros na base aérea de Guantánamo, o que me fez lembrar o seguinte: um norte-americano, em visita ao metrô de Moscou, que, segundo os soviéticos, não atrasava nunca nem um segundo sequer, observou que o trem estava atrasado mais de três minutos. O guia retrucou: "E vocês, que perseguem os negros!".
A verdade é que nem eu nem a Dilma nem nenhum defensor do regime cubano desejaria viver num país de onde não se pode sair sem a permissão do governo.

domingo, 4 de setembro de 2011

Colhendo o que plantou (Ferreira Gullar)




Lula deixou uma herança maldita: para não passar por conivente, Dilma teve de demitir "companheiros"

Como disse aqui na ocasião em que Lula deixava o governo, não pretendia voltar a escrever sobre ele. Principalmente porque deixava o governo. Sucede que não se sabe ao certo se ele o deixou e, se o deixou, atua como se não o tivesse deixado -outro dia inaugurou um hospital na Bahia- e se preparasse para reassumi-lo de fato em 2014.
Infelizmente não dá para falar bem dele, mesmo porque o que me traz de volta ao tema é, por um lado o que ele anda fazendo e dizendo e, por outro, a avaliação que a distância dele me possibilitou.
Não tenho prazer nenhum em falar mal de ninguém, particularmente quando se trata de uma figura nacional em quem tanta gente acredita. Pode parecer má vontade ou rancor, mas não é nada disso.
Penso como simples cidadão, atento ao que fazem os políticos e às consequências disso na sociedade. Tanto mais se esse político tem o peso e a influência de um líder como Lula.
Basta ver o que conseguiu quando presidente da República, usando de carisma, habilidade e falta de escrúpulos para montar uma máquina de poder difícil de enfrentar.
Não discuto a legitimidade de um partido ou de um líder pretender governar o país por mais de um mandato ou voltar ao poder, já que a lei o permite. A meu juízo, quanto mais alternância, melhor, já que dificulta a manutenção de feudos no organismo do Estado. Se a permanência prolongada já oferece esse risco, tanto pior é quando se trata de um partido ou líder pouco confiáveis.
E, se meu juízo a respeito de Lula já não era bom, o distanciamento e a revelação de novos fatos só vieram agravá-lo.
Lula é, sem dúvida, um fenômeno. Poucos líderes possuem, como ele, tanta sagacidade aliada à falta total de escrúpulos. Hoje entendo por que Brizola, referindo-se a ele, disse que era "capaz de pisar no pescoço da mãe". Com isso, não quis apontá-lo como um sujeito de temperamento violento, e sim destituído de qualquer compromisso com os valores morais. Só lhe importa o poder. De modo que, para conquistá-lo e mantê-lo, tudo vale.
Não me esqueço da expressão que vi no olhar de Lula, em 2005, quando eclodiu o escândalo do mensalão: era um misto de pavor e perplexidade. "Fui traído", afirmou então, tentando safar-se, e o conseguiu, jogando a culpa sobre seus auxiliares imediatos. Pouco depois, dizia que o mensalão era uma espécie de caixa dois. Hoje afirma que tudo não passou de uma conspiração para tirá-lo do poder. Isso muito embora o procurador-geral da República tenha aceito denunciar 34 dos 40 acusados no processo.
Esse é o Lula, que se apropriou dos programas do seu antecessor, muito embora tudo tenha feito para impedir que fossem implantados.
Forçado pelas circunstâncias, rendeu-se à aliança com o PMDB, mas manteve o pacto com a arraia miúda, já não a troco de grana, mas de cargos públicos e vista grossa para a corrupção que, em seu governo, se instalou nos ministérios.
Enfim, posso ter hoje uma compreensão melhor de quem é Lula e quais os seus propósitos. Ele é produto deste momento histórico, quando o fim dos partidos comunistas e do revolucionarismo guerrilheiro abriu caminho para líderes neopopulistas que, arvorando-se em defensores dos pobres, negociam com os ricos a paz social em troca de apoio material e político.
É o que Lula fazia como presidente, aliando o discurso antiamericano à oferta de empréstimos subsidiados do BNDES a grandes empresários. Se estava de acordo com as falcatruas praticadas por seus nomeados, pouco importava. Fez que de nada sabia, como convinha.
Eis a herança maldita que ele deixou para Dilma: para não passar por conivente, teve ela de demitir dezenas de "companheiros", envoltos em falcatruas.
No entanto, para ficar bem com os partidos da base, diz que a demissão dos corruptos não é faxina, que lembra sujeira. Aliás, corrupção também mudou de nome: agora se chama "malfeitos", como traquinagens de crianças... Haja eufemismos! E logo da parte de Dilma, que é a finesse em pessoa.
Mas os escândalos não param e em apenas oito meses. Já imaginou o que acontecerá em quatro anos? O lulismo está colhendo o que plantou. Independentemente do nome que Dilma dê a isso, talvez seja o começo do fim da aventura neopopulista, a que o país foi arrastado nestes últimos oito anos.

domingo, 24 de julho de 2011

Temos ou não temos presidente? (Ferreira Gullar)




Algo insistia em dizer que a intuição tinha fundamento, ou seja, o Brasil não tinha mesmo presidente


Como não pretendo enunciar verdades indiscutíveis acerca de questões políticas -nem de quaisquer outras-, dou-me o direito de especular livremente, atendendo apenas a minhas intuições. E intuição -sabe-se como é- nasce não se sabe bem como e chega aonde menos se espera. 
Tudo isso é para dizer que, outro dia, não sei por quê, fui surpreendido por este pensamento: "O Brasil não tem presidente". 
Espantei-me com a suposta descoberta, que, embora destituída de comprovação objetiva, chegava-me com a certeza de uma verdade.
"Mas como?", indaguei a mim mesmo. "E a Dilma Rousseff, não é a presidente do Brasil?" A resposta objetiva foi que sim, o Brasil tem presidente, que, aliás, é precisamente uma mulher, que se chama Dilma Rousseff.
E donde veio, então, essa ideia estapafúrdia de que o Brasil não tem presidente? Vai ver -pensei- é porque, como não votei nela, estou, inconscientemente, negando a sua presença no governo.
Bem pode ser isso. E por alguns momentos achei que era, mas a intuição de que o país não tinha presidente voltou e descartou a hipótese de que se tratava de mero despeito meu. 
Algo, dentro de mim, insistia em dizer que aquela intuição tinha fundamento, ou seja, o Brasil não tinha mesmo presidente.
Passei então a refletir sobre essa hipótese, já que a intuição, se não é verdade consumada, pode ser o começo de uma revelação. Noutras palavras, não é coisa de se jogar fora. Por isso, em vez de descartá-la, decidi examiná-la, descobrir em que, afinal de contas, ela se baseava. 
Esse foi o meu propósito, mas, como se sabe, intuição não nos oferece dados objetivos, do contrário não seria intuição, já seria conclusão.
Ainda assim, a alternativa era ou buscar descobrir qual fundamento tinha aquilo ou simplesmente deixá-lo de lado, ignorá-lo. 
Só que isso não era tão fácil, pois se tratava de uma intuição surpreendente, que envolvia a questão do poder no país. 
Já imaginou quais as consequências de concluir que a Presidência da República, ainda que oficialmente ocupada, de fato está vaga? Essa reflexão, por si só, bastou para me fazer mergulhar de vez na indagação da instigante hipótese. 
Decidi fixar-me nos dados objetivos relacionados com o assunto. Ali estava, diante de meus olhos, a figura de Dilma Rousseff com a faixa presidencial cruzando-lhe o busto, logo após receber de Lula o cargo supremo da nação: era de fato presidente do Brasil.
Mas não só isso: os meses se passaram e ela veio exercendo as funções presidenciais, seja assinando decretos, recebendo representantes dos outros poderes, recepcionando chefes de Estado de outras nações e, mais que isso, tomando decisões de caráter internacional, até mesmo contrárias à orientação que imprimira à nossa política externa o presidente anterior. 
E, como se não bastasse, escreveu uma carta reconhecendo os méritos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, coisa impensável num líder petista. Como então dizer que não temos presidente?
E aí me detive: pois é, como afirmar tal coisa? Em que se apoia, então, a intuição que me levou a semelhante questionamento? Indaguei e fiquei esperando pela resposta que eu próprio deveria dar.
E foi então que a resposta me veio, por voz outra, que falou pela minha... Antes, porém, me surgiu num espanto esta constatação: "Ninguém tem dúvida de que Obama é presidente dos Estados Unidos, mas e Medvedev, ele é mesmo presidente da Rússia? Restam sérias dúvidas...".
E, logo, a outra minha voz falou: "Sim, administrativamente, temos presidente. Ela assina papéis, toma decisões. Mas, como não foi propriamente por identificar-se com ela que o povo a elegeu -já que não tem uma história construída no corpo a corpo com o eleitor nas ruas-, o seu poder é constitucional, mas meramente formal. O que não quer dizer que fará mau governo. Mas que parece substituir alguém, parece. É como se ocupasse, provisoriamente, o lugar do verdadeiro presidente, que não se sabe quem é. Ou sabe?". 
E fico na mesma: ela não interveio no Ministério dos Transportes? Interveio, sim. Não obstante, continuo a achar, sem explicação lógica, que não temos presidente. Ela administra, mas não preside. É isso. Deve ser... Bom, deixa pra lá.


domingo, 10 de julho de 2011

Paris de muitos sonhos (Ferreira Gullar)




A cidade em que vivemos tem sempre um peso de realidade maior que o da cidade dos livros


A PARIS que primeiro se impôs à minha imaginação não foi, como no filme de Woody Allen, aquela onde viviam Scott Fitzgerald e Gertrude Stein, mas a de André Breton e Antonin Artaud. A época é a mesma -anos 20, diria-, porém, na minha cabeça, não era a mesma cidade a de uns e a de outros, mesmo porque Fitzgerald e Gertrude não eram franceses, mas norte-americanos que para lá se mudaram por razões artísticas ou, melhor dizendo, para se sentirem num mundo imaginário, a que também aspirava Gil, o personagem de "Meia-Noite em Paris". Já Breton, Artaud, Aragon, Péret eram franceses, parisienses mesmo, ainda que nem todos nascidos ali. A verdade é que a Paris em que viviam era bem mais real do que a dos arrivistas -se podemos falar assim-, no bom sentido.
Mas é, no mínimo, contraditório dizer que a Paris mais real era precisamente a dos surrealistas. É contraditório, mas compreensível, porque a cidade em que nos criamos, todos nós, e vivemos tem sempre um peso de realidade maior que o da cidade que conhecemos pelos livros. Os surrealistas desejavam incutir fantasia na Paris real; Fitzgerald, como Gil, queria viver, como sendo real, na Paris que inventou.
Já pesado demais para esses voos, via, nos surrealistas, mais irreverência e humor do que propriamente surrealidade, mais me divertia do que sonhava, ao ler aforismos como este: "Bate em tua mãe enquanto ela é jovem". Quando o li, numa revista francesa, na sala de leitura da Biblioteca Nacional, no Rio, fui tomado por um risinho incontido, que provocou olhares atravessados de outros leitores ali presentes. Só que não consegui me conter e, tomado de um frouxo de riso, saí da sala e fui sentar-me na escadaria da biblioteca. Uma senhora, que subia os degraus, olhou-me espantada -enquanto eu ria e repetia mentalmente: "Bate em tua mãe enquanto ela é jovem".
Nem todos os surrealistas, porém, eram engraçados. Antonin Artaud, por exemplo, sofria a contradição entre o corpo e o espírito, enquanto Jacques Vaché escreveu: "Vou me aborrecer de morrer cedo". E acrescentou: "Vocês todos são poetas, já eu optei pela morte". E se matou.
Muito diferente deles era Francis Picabia, que pintou "máquinas inúteis", espécie de complicadas engenhocas que não serviam para nada; uma gozação na tecnologia industrial. É dele, também, esta frase encantadora: "As flores e os bombons me dão dor de dentes".
Os surrealistas me faziam rir, às vezes me deslumbravam com seus versos ou suas pinturas, mas nem por isso desejei ir viver em Paris. Aliás, ganhei uma bolsa de estudos, mas preferi me casar e ficar em Ipanema. Antes disso, conhecia pessoalmente o poeta surrealista Benjamin Péret, que se havia casado com a cantora brasileira Elsie Houston, irmã de Mary, mulher de meu amigo Mário Pedrosa. E a coisa ficou mais real ainda quando o prenderam ao chegar ao Rio.
É que havia uma ordem de prisão contra ele, emitida nos anos 30, quando foi acusado de atividades subversivas. Fui visitá-lo na prisão e o entrevistei para a revista "Manchete". Mal-humorado, fez mixar qualquer ilusão que eu alimentasse pelo sonho surrealista. A obra, em geral, é melhor que o autor.
Por isso mesmo adorei o filme de Woody Allen, que nos mostra uma Paris de sonho, mais surreal do que aquela em que viviam os surrealistas. Trata-se, na verdade, de um conto de fadas: à meia-noite, após as 12 badaladas, surge uma carruagem... Não, neste caso, é um automóvel dos anos 20, que vem ao encontro de Gil, numa viela deserta.
Nele estão Scott Fitzgerald e Zelda, sua mulher, para a surpresa e encantamento do rapaz, que sonhava se tornar romancista, embora fosse um roteirista de sucesso em Hollywood. Eles o levam ao encontro de Gertrude Stein, Pablo Picasso e Salvador Dalí... como, certamente, um dia o desejou o próprio Woody Allen em sua primeira visita a Paris.
E, naquela tarde de sábado em Botafogo, fomos também, a Cláudia e eu, levados, na sala escura, a viver uma aventura irreal, num tempo outro e mais real do que o que nos esperava lá fora, finda a sessão de cinema. E, de fato, saímos para a realidade da nossa vida que, no entanto, já não era a mesma de quando entráramos no cine

terça-feira, 21 de junho de 2011

Resmungo teológico (Ferreira Gullar) )



Relendo meu próprio artigo, perguntei-me: o que se ganha em negar a existência da alma?


EMBORA DEFIRA DO biólogo Richard Dawkins que, nesta semana, na Flip, alardeou seu ateísmo, eu, em meio aos meus costumeiros resmungos, pus em dúvida aqui a existência da alma, chegando mesmo a lembrar que, em certa época remota, os gregos a designavam pela palavra "pneuma", que significa ar, sopro, ou seja, a respiração de quem está vivo. Nada mais que isso. Fiz essa afirmação, meses atrás, a propósito da excomunhão dos médicos que praticaram aborto numa menina, estuprada pelo padrasto. Como, para a Igreja Católica, a alma já está no momento da fecundação, praticar o aborto é matar um ser humano, dono de uma alma divina.
Afirmei, por isso, que, para ela, o que importa não é a vida e, sim, a alma, razão por que, durante a Inquisição, condenou à morte, na fogueira, milhares de pessoas, para salvar-lhes a alma.
Tem lógica mas, relendo o meu próprio artigo, perguntei-me: o que se ganha em negar a existência da alma? Pergunta essa que, feita por mim, pode surpreender o leitor.
É que me lembrei de que não foi a Igreja Católica quem inventou a alma. Os gregos, muito antes de Sócrates e talvez mesmo de Pitágoras, já a tinham inventado, sem falar nos egípcios, que acreditavam numa vida post mortem, mas com o corpo também e, por isso, faziam-se embalsamar. Os cultos órficos da Grécia pré-helênica fundavam-se na crença da transmigração das almas que, no além, poderiam ser premiadas ou punidas pelo que fizeram aqui em baixo. Inscrições descobertas em sepulturas daquela época contêm ensinamentos de como a alma do morto deveria se comportar para merecer a salvação.
Num desses textos, lê-se o seguinte: "Tu acharás, à esquerda da casa de Hades, uma fonte e, a seu lado, um cipreste branco. Dessa fonte, não te aproximarás, mas te depararás com uma outra, perto do lago da Memória. Diz: "eu sou filho da terra e do céu estrelado'". É que para eles, o corpo vinha da terra e a alma, do céu.
Essa visão do homem como ente, ao mesmo tempo, terrestre e celeste, irá ganhar consistência teórica na filosofia de Sócrates e, sobretudo, na de Platão. Pode-se supor que a admirável bravura e despreendimento daquele em face da morte, deve-se, de fato, à sua convicção de que, depois dela, havia outra vida e melhor.
Se Platão herda de Sócrates essa convicção, em sua teoria a existência da alma está essencialmente ligada à possibilidade do verdadeiro conhecimento. Para ele, o corpo era um fator que impedia de se conhecer a verdade, não facultada aos sentidos. Pelo contrário, na sua concepção, os sentidos nos iludem, induzindo-nos a uma visão imperfeita da realidade. Donde a conclusão de que, só depois que nos livramos do corpo, podemos apreender a verdadeira realidade da existência, a que apenas a nossa alma teria acesso.
Essa concepção platônica da alma influiu na visão do cristianismo e, consequentemente, na teologia da Igreja Católica.
Mas, até onde me é dado perceber, elas não são idênticas em todos os pontos, especialmente em um: enquanto na teoria platônica o que há de reprovável no corpo é sua incapacidade de apreender o verdadeiro conhecimento, na teologia católica, essa incapacidade se converte em pecado, isto é, o corpo, sujeito a desejos condenáveis, contamina a alma de pecados, que podem levá-la à perdição eterna. Nisto, a concepção católica parece mais próxima do orfismo que do platonismo, mais filosófico do que teológico.
Mas meu propósito aqui não é discutir essas questões e, sim, afirmar que, na dúvida de que a alma exista ou não, melhor será acreditar em sua existência do que negá-la, já que não há como provar uma coisa nem outra.
Negamos a alma porque somos herdeiros do progresso econômico e científico, que nos revelou a lógica material da natureza e da vida, e que é irretorquível. Não obstante, a própria ciência diz que não é capaz de responder a questões como esta: por que existe algo em vez de nada? Assim, o enigma da existência continua sem resposta.
Não fui eu mesmo quem disse que o homem inventou Deus para que este o criasse? Ele o inventou porque não quer ser igual a um simples animal, nascido da natureza, condenado a acabar para sempre. Se sou filho de Deus, tenho uma alma divina que me torna imortal. E é isso, essa capacidade de inventar-se, que nos distingue dos outros animais. Filho de Deus mesmo ou inventado por si mesmo, a verdade é que o homem necessita da transcendência e aspira à eternidade. Por isso, precisa da alma, uma vez que o corpo, após a morte, virá pó.
Pessoal, este papo está brabo demais! Vamos mudar de assunto?

O olhar de Deus / Voo cego (Ferreira Gullar)

  
Não se trata de que o que irá acontecer já esteja escrito. Os gregos pensavam assim e, ainda hoje, há quem pense igual: se não é o Destino, é Deus. Mas há quem acredite que coisas acontecem por uma combinação de acaso e necessidade, sendo que o que chamamos de acaso não é mais que uma probabilidade real embora imprevisível. É que a complexa tessitura da existência excede nossa capacidade de abarcá-la e, menos ainda, de prevê-la. Assim, nós, seres humanos, em face da imprevisibilidade da vida, inventamos Deus, que é a Providência, ou seja, aquele que nos protege do imprevisível, do acaso, isto é, da bala perdida.
Pois bem, como disse no começo, não se trata de que o que vai ocorrer na viagem de Guto - que neste momento arruma a mala - à Europa esteja escrito. Não está, mas, na intrincada cadeia de probabilidades, dada a ação de tantos fatores que, cegamente, prepararam o futuro, pode a aeronave despencar de 11 mil metros de altura ou simplesmente explodir.
Assim, sem de nada saber, fechou a mala, pôs no ombro a sacola e dirigiu-se para o elevador. Atravessou o hall de entrada e caminhou até o táxi. Depois que o chofer guardou-lhe a bagagem no porta-malas, Guto, já acomodado no banco de trás, falou-lhe:
Para o aeroporto Tom Jobim.
Vamos nessa. Quer que ligue o ar refrigerado?
Por enquanto, não.
Estavam em Copacabana e o melhor caminho àquela hora era pela avenida Atlântica, mesmo porque Guto preferia ver o mar a sentir-se sufocado em meio a ruas saturadas de tráfego.
O táxi entrou, depois, pela Princesa Isabel, passou pelo Túnel Novo e dirigiu-se para o Aterro do Flamengo. Durante todo esse caminho, ele olhava a cidade com uma sensação estranha, como se despedisse dela. Evitou esse pensamento e voltou-se para a enseada de Botafogo, tranquila naquele fim de tarde. Ao fundo, o Pão de Açúcar erguia-se granítico e eterno, o que lhe fez pensar nas tantas e tantas pessoas que, ao longo do tempo, o viram ali e se foram, enquanto ele continua. Para livrar-se dessas ideias, pegou o celular e ligou para Júlia.
Oi, amor, tudo bem com você?... Ainda estou no táxi, a caminho do aeroporto... Ontem à noite foi bom, não foi?
Conversaram ainda um pouco, mas ela estava de saída para a casa da irmã, onde passaria alguns dias.
O táxi seguia agora pela Linha Vermelha, como sempre engarrafada àquela hora. Mas tinha tempo suficiente, pois, quando viajava, sempre saía de casa com bastante antecedência para evitar estresse. E com razão, pois quando desceu do carro no aeroporto faltavam ainda duas horas para o embarque. Por isso, sem pressa, ainda que estranhamente apreensivo, dirigiu-se para o balcão da Air France, onde teve de enfrentar uma fila de bom tamanho. Finalmente, despachou a bagagem, recebeu o cartão de embarque e caminhou até o restaurante para beber alguma coisa, enquanto esperava a chamada. O restaurante estava lotado, como costuma acontecer ultimamente, tal é o número de pessoas que viajam de avião. Preferiu ir logo para a sala de embarque, onde se acomodou e ficou lendo a revista que levara consigo.
Enquanto isso, acima do Atlântico, na zona de convergência intertropical, por onde o seu avião inevitavelmente passaria, armava-se uma feroz tempestade. Nuvens de tamanho incomensurável, como negras montanhas móveis, carregadas de eletricidade e granizo, juntavam-se naturalmente, sem qualquer propósito, movidas aleatoriamente pelas correntes atmosféricas.
Sem de nada saber, Guto, ao ouvir a chamada para o embarque, entrou na fila que já se formara à porta da aeronave. Ali estava ele, tomado de estranha apreensão, como nunca lhe ocorrera nas viagens que frequentemente fazia. Nunca ficara tenso, mesmo porque, mal sentava na poltrona, caía no sono e só acordava horas depois, quando a viagem já chegava ao fim. Desta vez, porém, a tranquilidade costumeira mudara-se em tensão, e tenso esperou até que os motores começassem a funcionar e o avião levantasse voo.
Não só lá fora, sobre o Atlântico, uma ameaça se armava, mas também no avião, na sua estrutura eletromecânica, alguma coisa inesperada parecia insinuar-se, como falha ou pane. Se na natureza os processos se desenvolvem sem nenhum propósito ou finalidade, no avião, ao contrário, máquina que é, obra humana, tudo cumpre uma função determinada, para fazê-lo voar. Se alguma coisa falha...
Só que, para Guto e as outras 220 pessoas que, no bojo daquele Airbus-A330, seguiam para Paris, era impossível sabê-lo, já que, na ausência dos deuses, todo voo é cego. Para o bem ou para o mal.

domingo, 19 de junho de 2011

Às cegas (FERREIRA GULLAR)




Esse tipo de partido imagina que basta tirar a burguesia do poder para resolver os problemas


FAZ ALGUMAS semanas, cometi o atrevimento de tentar demonstrar como o Lula e o PT terminaram por ocupar, na vida política brasileira, o lugar do partido que era o seu principal adversário, o PSDB. Não havia nada de desconhecido nessa metamorfose, faltava apenas enunciá-la, e foi o que eu fiz: demonstrei como Lula e seu governo, depois de combaterem ferozmente o governo FHC e seus programas, entenderam que, se insistissem nessa postura, jamais alcançariam a presidência da República. Mudaram e ganharam as eleições. E mais: ao assumir a chefia da nação, sem nenhum projeto, Lula viu que, se não seguisse o rumo do governo anterior, levaria o país ao desastre. E assim foi que, conforme disse naquela crônica, o lobo vestiu a pele do cordeiro, isto é, o PT virou PSDB. E a metamorfose continua, pois, agora, depois de satanizar, durante as últimas eleições, a privatização, Dilma decide privatizar os principais aeroportos do país.
Disso resultou que o PSDB não conseguiu fazer oposição de fato ao governo petista, já que para isso teria que se opor a tudo o que defendera e implantara no país. E essa situação se mantém, e de tal modo, que o PSDB, desde então, mergulhou numa apatia que vinha se agravando a cada dia. E, com a cara de pau que o caracteriza, Lula afirmou que isso ocorre porque o partido de FHC não tem programa...
A verdade é que Lula -e agora Dilma-, tendo se transformado em autores dos projetos e programas que combateram, aliaram às medidas saudáveis do governo anterior -que liquidaram com a inflação e mantiveram estável a economia- outras abertamente populistas, visando conquistar o maior número possível de pessoas carentes.
Com isso, Lula garantiu a seu governo e seu partido uma popularidade de que jamais gozariam se tivessem persistido na pregação radical que sempre os caracterizou. Além do mais, aparelhou órgãos e empresas estatais, pondo-os todos a serviço da propaganda oficial. De tudo isso resultaram o enorme crescimento do PT nas últimas eleições e a inabalável popularidade de Lula, que assim pôde eleger para a presidência uma senhora que jamais disputara qualquer pleito eleitoral. Ela governa o país, seguindo o mesmo plano populista de seu inventor, com ampla aprovação popular.
Que perspectiva viável terá um partido de oposição, como o PSDB, em face de semelhante situação? Essa pergunta de difícil resposta tem levado muitos opositores de Lula e do petismo à indecisão e à imobilidade.
É verdade que alguns fatos recentes deram certo alento à oposição, como a derrota do governo na votação do Código Florestal e, sobretudo, o escândalo que envolveu Antonio Palocci e resultou em sua saída da chefia da Casa Civil. Mas esses episódios, se revelam a verdadeira natureza do governo petista, não bastam para afirmar a oposição como alternativa de governo. Isso só acontecerá quando os líderes oposicionistas se dispuserem a refletir sobre a situação do país, visando construir um projeto de nação.
Para concebê-lo seria necessário entender que a estabilidade econômica, se é um fator positivo, não basta para definir o futuro e garantir a melhoria real da vida das pessoas, particularmente daquelas menos equipadas para crescer socialmente. Esse projeto, o PT não é capaz de criar.
E não o é porque ele não tem nem nunca teve plano de governo. Esse tipo de partido, por acreditar que todo o mal da sociedade decorre do domínio da burguesia, imagina que basta tirá-la do poder para resolver todos os problemas. Foi por isso que, para governar, o PT teve que transformar-se em PSDB. Mas continua sem projeto próprio.
Isso significa que, não o tendo, improvisa a cada dia um novo lance populista, como o recente Brasil sem Miséria, mais um slogan do que um programa de governo. Esses programas assistenciais não são capazes de alterar qualitativamente a vida das pessoas, especialmente dos jovens, cujo futuro depende da educação de qualidade.
São previsíveis os problemas que as novas tecnologias poderão criar em nosso país, no qual seu uso se estende de forma célere sem que a isso corresponda à formação de quadros técnicos aptos a fazê-lo funcionar. Enfim, o Brasil precisa de um projeto de nação. 

domingo, 8 de maio de 2011

E o lobo virou cordeiro (Ferreira Gullar)





Se Lula aderiu às ideias do adversário, foi porque estas correspondiam às necessidades do país


O LEITOR sabe muito bem que não sou nem pretendo ser cientista político, mas apenas alguém que, como qualquer cidadão, acompanha com atenção o que ocorre em nossa vida política e procura, tanto quanto possível, compreendê-la. Mas não o esgoto, dou palpites. Não obstante, pelos muitos anos que tenho de observar, ler e refletir sobre os fatos políticos, creio às vezes perceber algo que ainda não foi formulado claramente pelos analistas profissionais.
Mas, também, pode ocorrer que me engane, claro. Ainda assim, me atrevo a dizê-lo, correndo o risco de não ir além do óbvio. É o que farei agora. Mas, antes, advirto os petistas de que, se lerem esta crônica até o fim, podem até concordar comigo.
Começo pelo que todo mundo sabe e que Lula e sua turma tudo fazem para ocultar: sem o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal, o Proer e outras medidas tomadas por Itamar e Fernando Henrique, o êxito do governo Lula teria sido simplesmente impossível.
Não se trata, aqui, de uma simples opinião, mas de um fato incontestável de que nenhum economista ou cientista político que veja os fatos com isenção discordará. Todos sabemos, o Plano Real foi o que pôs fim à inflação galopante que arrasava os salários e a economia brasileira como um todo.
A criação do Real e os procedimentos que possibilitaram uma atitude disciplinadora em face dos problemas estruturais de nossa economia assinalaram o início de uma nova fase em nossa história.
Em seguida, a Lei de Responsabilidade Fiscal liquidou com uma das principais fontes do processo inflacionário: os gastos sem controle promovidos sobretudo pelos governos estaduais.
Essa lei, que condiciona as despesas públicas à arrecadação efetivamente conseguida, só foi posta em prática porque Lula e o PT não lograram impedir sua aprovação pelo Congresso. Foram derrotados na Câmara, depois no Senado, mas não desistiram e entraram com uma ação no Supremo Tribunal Federal para sustá-la.
A campanha do PT contra o Plano Real foi igualmente feroz, chegando Lula a afirmar que se tratava de um lance eleitoral demagógico, feito para não durar mais que três meses. O Proer, que evitou uma crise bancária de consequências imprevisíveis, contou igualmente com a furiosa oposição dos petistas.
A conclusão inevitável é que, se dependesse deles, nenhuma dessas medidas teria sido adotada e a economia brasileira não teria alcançado o equilíbrio e a consistência que permitiram ao governo Lula realizar o que realizou.
Cabe agora perguntar: não foi bom para o país que o governo Lula tenha dado certo? Claro que foi. Então, não tem sentido criticá-lo por ter feito o que era certo fazer.
Ideologia é uma coisa, realidade é outra. Quando Lula se deu conta de que sua pregação radical não o levaria ao poder, mudou de tom e de mensagem, assumindo uma posição moderada que lhe possibilitou ganhar as eleições. À frente do governo, adotou tudo o que seu adversário implantara, desde os programas assistenciais até a política econômica "neoliberal", imprimindo àqueles um colorido populista e à política externa um cunho antiamericano para salvar a face.
Com esses toques, que chegavam aos ouvidos do povão ampliados pela retórica de Lula, construiu-se a imagem de um governo que contou com a simpatia popular e ganhou a confiança do empresariado.
Nada melhor para o capital do que um país sem greves nem crises econômicas.
Uma visão simplista atribuiria tudo isso ao carisma e à sagacidade política de Lula quando, na verdade, se trata de coisa bem mais complexa, conforme entendo. Se Lula mudou de retórica e de visão social, aderindo às ideias do adversário, foi porque a visão e os projetos deste é que correspondiam às necessidades reais do país.
As mudanças que ele introduziu, por serem necessárias, tornaram-se irreversíveis. E, assim, o PT virou PSDB, como um lobo que se metesse em pele de cordeiro. Com a diferença de que, se o lobo da fábula continuou lobo, o lobo Lula virou cordeiro mesmo. E Dilma, mais ainda, se não quiser fracassar.
Daí por que o PSDB tem dificuldade de fazer oposição, pois seria como opor-se a si mesmo.
E também por isso Serra defendeu um salário mínimo de R$ 600, como se fosse possível cordeiro virar lobo, de repente.