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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Chorando em chinês (Marcelo Coelho)




Seja como for, é difícil acreditar que saia alguma obra-prima de um curso de poesia para a terceira idade



Um dos maiores compositores do século 20, Béla Bartók (1881-1945) dava aulas de piano, mas nunca quis ensinar composição. "Isso não se ensina", dizia ele.
Será verdade? Em certo sentido, imagino que sim: aula nenhuma poderá transformar uma pessoa medíocre em gênio criador. Em outro sentido, Bartók estava errado. Linguagens se aprendem, e toda arte, afinal, é uma linguagem.
O professor pode ensinar a técnica, a "gramática", os truques da composição (do desenho, da pintura, da poesia) e, sobretudo, pode mostrar a seus alunos onde "erraram": os clichês, as transições malfeitas, as repetições involuntárias, as intenções mal exploradas. Seja como for, é difícil acreditar que saia alguma obra-prima de um curso de poesia para a terceira idade.
Não digo obra-prima, mas um belo filme nasceu desse ponto de partida. Chama-se precisamente "Poesia" e ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes. Dirigido por Chang Dong-Lee, o filme coreano está agora disponível em DVD, para quem (como eu) perdeu a chance de vê-lo no cinema. Aliás, é um daqueles filmes que funcionam bem na tela da TV.
A paisagem urbana que se vê no filme é das mais desinteressantes, e o diretor não quer mostrar quase nada dela -exceto aqueles ônibus, igrejas, conjuntos habitacionais e terrenos baldios que poderiam ser tanto de Seul quanto de São Paulo ou de Porto Alegre. O que se vê em "Poesia" é a aparência, banalíssima, de seus personagens. E, mesmo assim, o rosto da atriz principal (Jeong-hie Yun) interessa mais pelo que está ocultando do que pelos sinais de emoção que possa revelar.
Talvez seja este o aspecto mais "oriental" (o único, na verdade) de um filme que trata de sentimentos capazes de merecer uma qualificação bastante fora de moda: universais.
Tem sido tão grande a insistência na incompatibilidade entre as culturas (e em nossa necessidade de respeitar o "exótico", o "diferente", o "outro") que a palavra "universal" se tornou quase proibida. Virou sintoma de pretensão, cegueira e etnocentrismo, quando deveria ser justamente o contrário.
Nenhum filme, nenhum livro, nenhuma lenda, nenhum poema de outra cultura poderia ser visto, lido ou traduzido se não possuísse, além das suas peculiaridades de linguagem e referências específicas, uma verdade humana que vai além de seus limites geográficos e temporais.
Tome-se, por exemplo, o curso de poesia para a terceira idade que a protagonista do filme (uma senhora não muito velha que começa a ter sintomas de Alzheimer) resolve acompanhar. Querendo estimular seus alunos, o professor lhes pede que contem, diante da classe, qual a experiência mais feliz que tiveram em suas vidas.
Um homem magro, encabuladíssimo, rosto muito vincado pelo trabalho, vai à frente e se espreme numa série de sorrisos. "Nunca tive muita felicidade na vida..." Conta que sempre foi muito pobre e que morou a maior parte do tempo num porão, num barraco ou coisa assim; os pais e os vários irmãos compartilhavam o mesmo quarto.
"Muito mais tarde", conta, "consegui dar entrada num apartamento". Entrou na sala vazia, sozinho, e deitou-se no chão. "Aquela sala parecia enorme... e eu me senti o dono do mundo." Está chorando, aos arrancos, quando termina de falar.
"Poesia" não se concentra muito nas cenas desse curso: gira em torno do suicídio de uma menina e das dificuldades da velhota em conversar sobre o assunto com seu neto adolescente. Contar mais estraga o filme. Passo então a outro choro, de outro personagem, também nascido do outro lado do mundo. Em "Um Conto Chinês", filme argentino de Sebastián Borensztein, o excelente ator Ignacio Huang contracena com Ricardo Darín numa engraçada e pungente história de completa incomunicação.
Huang é um chinês que procura a família na Argentina, sem saber uma palavra de espanhol. Darín é um argentino que, mestre como sempre na expressão idiomática, na "tipicidade" portenha, não quer conversa com ninguém. Vem um telefonema, entretanto, uma torrente de palavras em chinês, uma sequência de assentimentos de cabeça, um choro longamente represado, e entendemos tudo. Não é tão difícil assim, mesmo sem saber a linguagem.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Outra arte (MARCELO COELHO)




Estamos sempre perdendo, o mais difícil é levar as coisas para o lado pessoal na arte de agradecer



Chaves, celulares, óculos; não importa. Perca uma coisa por dia, recomenda Elizabeth Bishop (1911-1979) num poema famoso. Existe, diz ela, a "arte de perder", cujo aprendizado não é difícil.
Estamos sempre perdendo. Já perdi uns três celulares, sem contar o carregadorzinho que acompanha cada um, e que é sempre diferente. Nem falo das máquinas fotográficas digitais, dos seus carregadores e dos fios que servem para ligá-las ao computador. Se não as perco, logo se quebram. Como não adianta mandar para o conserto, estão perdidas de qualquer jeito.
As próprias fotos, transferidas para o computador, nem por isso estão guardadas. Perderam-se em alguma pasta de arquivos; se não tenho paciência para procurá-las, perdidas ficarão.
Isso no que se refere à arte de perder. Existe outra arte, todavia, um pouco mais difícil, e outro poeta, um pouco menos direto, se ocupou dela.
É a arte de agradecer. Acho que William Wordsworth (1770-1850) se referia a isso quando escreveu, depois de um passeio campestre: "Tudo o que contemplamos está cheio de bendições".
Claro, quando se tem 28 anos (a idade de Wordsworth quando escreveu "Tintern Abbey") e se está diante de uma paisagem verdejante, não é injustificado reconhecer, com a calma intensidade do poeta, que "all which we behold is full of blessings".
Mas ele sabia do que estava falando. Não ignora, no mesmo poema, "o peso moroso e duro de todo este inexplicável mundo", nem tudo o que já tinha perdido desde sua infância, livre e selvagem, naqueles mesmos campos da Inglaterra.
Ainda assim, ele quer agradecer -e esse aprendizado tem um bocado de religioso. A coisa toda está acima das minhas forças, mas não custa treinar de vez em quando.
No trânsito, na fumaça e na chateação de São Paulo, tenho topado com não sei que tipo de árvore, floridíssima, numa cor clara de rosa quase branca. Não basta, acho, pensar: "Olha aí, bonita essa árvore".
Ajuda imaginar que é um presente. Se não de Deus, que seja da prefeitura, não importa. É bom levar as coisas para o lado pessoal, como fazemos tão facilmente diante de infelicidades diversas. "Essa árvore está aí para mim." Agradeço.
Convém não exagerar. Li outro dia que um cidadão paulistano, acordando feliz para ver a bela figueira centenária que tinha diante da janela do apartamento, teve a ingrata surpresa de vê-la derrubada.
Era cupim; era o vento; até aí, nada de mais, mas o chato é que seu carro tinha ficado embaixo. Por esse tipo de coisa, conheço um colega carioca que, todos os dias, quando acorda, dá graças ao destino por não ter nascido paulista.
Eu estava dizendo que já perdi três celulares, mas (para entrar enfim no tema deste artigo) eis aí uma perda que não lamento. Na verdade, o que desejo agradecer aqui é o fato de não precisar de celular.
Entendo que um médico, um advogado criminal ou um corretor de imóveis não possam viver sem celular. Já pensei em abandonar até o telefone fixo, que me sobressalta a cada chamada (por que não mandaram um e-mail?). Enquanto isso não acontece, o celular fica bem desligadinho, lá onde não sei onde ficou.
Não nego as vantagens do aparelho. Você pode usá-lo em todo lugar. Você também se torna onipresente. É, assim, um multiplicador de espaço.
O telefone móvel, como o automóvel e qualquer outra coisa que termine em "móvel" serve para isso mesmo. Livra-nos da casa, dos fios, das tomadas, do lugar, do terreno, até do computador.
E o próprio computador, observo de passagem, já se livra de si mesmo graças à computação "em nuvem" -seus arquivos e programas vão literalmente para o espaço, ou melhor, para a ausência de lugar, para um espaço invisível, abstrato, nenhum.
Chego então ao paradoxo. Com a onipresença conquistada, com a multiplicação de um lugar em todos os lugares possíveis, com a mobilidade geral de tudo, é o tempo que se reduz.
Cada celular é um roedor de tempo, e o cidadão, para estar acessível e ser acessado em todos os lugares, paga o preço de viver espremido, sem ar, numa cela minúscula de poucos minutos por vez.
Seria o caso, então, de aprender com as árvores, que têm muito tempo para crescer e florir, por estarem fixas no espaço, presas às suas raízes. A menos, claro, que desabem de repente.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Meia-Noite em Paris (Marcelo Coelho)




Novo filme de Woody Allen nos faz concluir que não se fazem mais homens como antigamente


GIL PENDER é um boboca de Pasadena, Califórnia, nos Estados Unidos, prestes a casar com uma patricinha autoritária. Os dois estão em Paris. A patricinha faz compras. Ele passeia pelas ruas da cidade; adora Paris quando chove e sonha com a época de ouro da cidade.
A saber, os anos 20, quando escritores e artistas como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Pablo Picasso e Salvador Dalí se entregavam ao jazz, ao inconsciente, à bebida e às trepidações da modernidade.
Gil Pender escreve roteiros para Hollywood, ganha um bom dinheiro, mas sua fantasia é ser romancista. Ou melhor, ter sido romancista, em Paris, naquela época.
Magicamente, numa noite de bebedeira, seu desejo se realiza. Uma limusine amarela aparece, e o tímido Gil, um verdadeiro prodígio de falta de assunto, é convidado a entrar. Zelda e Scott Fitzgerald estão no carro. Ele está nos anos 20.
Esse é o ponto de partida do último filme de Woody Allen, "Meia-Noite em Paris", que entrou em cartaz na semana passada.
Como quase sempre, Woody Allen inventa uma história de amor muito delicada, em que muitas possibilidades de desenvolvimento e de desfecho se abrem como um leque para o espectador.
Tudo pode acontecer, desde que dentro de um jogo no qual o resultado, em última análise, seja civilizado e feliz.
Mas "civilizado" e "feliz" não são adjetivos que possam ser aplicados facilmente ao estilo de vida daqueles americanos durante as "années folles" de 1920.
Oficiante máximo do culto ao machismo, à coragem e às touradas, Hemingway hoje pode ser legitimamente qualificado como "figura do século passado". Em Paris, Scott e Zelda Fitzgerald foram colhidos num tsunami de álcool, paranoia e possessividade.
Talvez esteja aí o fundo melancólico, e também crítico, do filme de Woody Allen. Mais uma vez, Gil Pender (Owen Wilson, uma espécie de Robert Redford com baixo teor de sódio e gordura trans) encarna a personagem do sujeitinho hesitante e submisso, às voltas com rivais mais fálicos do que ele.
Ao contrário do que acontece em muitos outros filmes de Woody Allen, Gil Pender não tem nem sequer a qualidade de ser neurótico. É apenas um garotão saudável do século 21, incapaz de se impor sobre as vontades da noiva; mesmo suas discussões com o sogro direitista estão dentro dos parâmetros recomendáveis da associação psiquiátrica americana.
A nostalgia do personagem pela cultura dos anos 20 tem, assim, um lado menos refinado do que se poderia pensar à primeira vista.
É que, parece dizer Woody Allen, não se fazem mais homens (nem neuróticos) como antigamente. Pelo menos, é a conclusão que se tira do encontro entre Gil e Hemingway. Na verdade, o autor de "Adeus às Armas" é menos o próprio Hemingway do que a projeção daquilo que Gil Pender sabe sobre ele.
Cada personalidade famosa do filme aparece com as ideias e as atitudes que o espectador informado esperaria que tivessem.
Desse modo, Hemingway dá conselhos "durões" para o aspirante a romancista.
É preciso perder o medo da morte; só a paixão total por uma mulher pode nos ensinar esse segredo. Escrever é sangrar, viver é entregar-se às balas do inimigo, e matá-lo sem culpa.
Existe um sentimentalismo desse tipo de bravura, assim como existe, hoje em dia, o sentimentalismo das boas causas e da ecologia. Sem um pouco de ironia, estamos sempre condenados a cair num ou noutro tipo de esparrela.
Ironia é justamente o forte de Woody Allen -o que não exclui seus bons sentimentos.
Numa daquelas festas do passado, Gil encontra Luís Buñuel -e resolve meter sua colher na obra futura do cineasta. Diz ter uma excelente ideia para um filme: imagine-se que um grupo de pessoas, numa reunião elegante, repentinamente se torna incapaz de sair da sala. E passará vários dias nessa prisão imaginária e inexplicável.
Quarenta anos antes de filmar "O Anjo Exterminador", Buñuel não entende, ainda, o que há de interessante nessa ideia.
"Meia-Noite em Paris" parece brincar com um tema parecido. Não estamos incapacitados de sair de uma sala por nenhum feitiço. Mas, se o espaço não nos aprisiona, estamos contudo presos ao nosso próprio tempo. Na plenitude da velhice, Woody Allen nos diz que temos só uma vida para viver -a nossa. "Meia-Noite em Paris" ajuda a melhorá-la um pouco.