Mostrando postagens com marcador Francisco Daudt). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Francisco Daudt). Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de junho de 2011

O sentido da vida (Francisco Daudt)




Tentamos dar um significado diferente à nossa existência do que é ditado pela natureza humana

Do ponto de vista da mãe natureza, já nascemos com o sentido da vida, embutido em nossos softwares cerebrais, completamente pronto. 
Dizem os genes masculinos aos seus portadores: "Procrie com o maior número de mulheres possível, escolhendo as mais belas, dóceis, inteligentes e atenciosas com as crias. 
Dê alguma atenção e ajuda a elas para que suas crias não sejam prejudicadas, mas nada que o impeça de partir para a próxima. 
De preferência, tenha um harém bem cuidado por eunucos (você não vai querer criar filhos de outros, claro) e vá incorporando novas mulheres pelos mesmos critérios.
Para isso, você precisa se preparar: torne-se belo, forte, alto, inteligente, mas, sobretudo, rico e poderoso. Lidere guerras que possam tomar do inimigo suas posses e mulheres, pois isso o enriquecerá e encherá seu harém (um sultão do século 19 teve 840 filhos, um exemplo de homem comandado por seus genes).
Se a política do país o obrigar à monogamia, drible-a sendo um polígamo seriado: você tem dinheiro para sustentar oito ex-esposas e suas crias e você tem tempo para isso, já que os homens não envelhecem. 
Podem seguir acumulando dinheiro e poder e são férteis até a morte".
Dizem os genes femininos às suas portadoras: "Procrie o mais que puder com os homens mais belos, fortes, inteligentes, agressivos, mas, sobretudo, ricos e poderosos. Se possível, case-se com um deles e cuide para que ele a prestigie e dê garantias de provimento para você e suas crias, pelo maior tempo possível.
Se você não conseguir um 'topo de linha', pode se casar com um 'mais ou menos': você pode se oferecer e procriar com o patrão dele, sem que ele saiba, e colher genes poderosos para suas crias, desde que a aparência delas não seja testemunha da sua traição. Prepare-se: comece cedo. Você não tem muito tempo, e juventude é seu maior cacife. 
Procure ser bela e parecer recatada: isso aumenta seu preço de compra e ilude o homem com presumida fidelidade. Não conseguindo ser bela, você pode ser oferecida, mas procure parecer bela, usando todos os expedientes ao seu alcance. 
O mesmo vale para a juventude (velhas nunca foram símbolos sexuais). Malhação, plástica e pintar cabelos servem para isso. Cuide das crias. São raros os homens que se preocupam com isso".
É, a natureza é cínica e cruel para atingir seus objetivos. A ponto de os biólogos dizerem que a galinha é uma máquina inventada pelo ovo para fazer outros ovos. 
Mas nós somos um bicho que pensa, que deseja ética, que filosofa e que, portanto, busca um sentido na vida diferente daquele dos genes. 
Isso resultou em inúmeros "sentidos da vida" criados por nós. Mas meu objetivo era falar do que ninguém fala: da natureza humana, essa força poderosa que carregamos sem saber. 


FRANCISCO DAUDT, psicanalista e médico, é autor de "Onde Foi Que Eu Acertei?", entre outros livros


domingo, 19 de junho de 2011

O que querem as mulheres (Francisco Daudt)




A despeito do movimento feminista, a imensa maioria delas continua sonhando em se casar e ter filhos



"O QUE, AFINAL, querem as mulheres?" A frase ficou célebre como a questão que Freud não soube responder. Os psicólogos evolucionistas (que usam teorias de Darwin para entender o comportamento humano) acham que resolveram o enigma: "Querem casamento, garantias e prestígio".
A primeira vez que li tal frase, achei-a de um machismo absurdo. Precisei me lembrar que os psicólogos falam do desejo genético, da força da natureza atuando em nós de maneira inconsciente.
Quais são seus argumentos? Dizem que tudo se resume à procriação. Se para um homem o procriar se reduz a segundos, para uma mulher pode se estender em uma trabalheira de anos e em uma necessidade de muita ajuda.
Esse processo foi gravado em nossos cérebros em milênios de vida dura na savana africana, onde a ajuda do homem era mais necessária para alimentação e proteção.
Mas... casamento na savana? Claro, não no conceito atual, mas no de um homem que privilegia uma mulher e suas crias, e daí a demanda por prestígio e a disputa por ele, daí o ciúme e a competitividade entre elas.
O quesito "garantias" viria da tendência de essa mulher olhar esse homem como sua propriedade e agir como se tal fosse, cercando-o, para garantir que o alimento e a proteção se mantivessem voltados para ela.
E hoje, podemos ver os vestígios desse desejo natural em operação? Eles abundam. Vejamos: a despeito do movimento feminista, a imensa maioria das mulheres continua sonhando em se casar e ter filhos. E logo, pois sabem que o relógio biológico não perdoa e que a juventude é seu bem mais precioso.
Tem peça de teatro chamada "Sou infeliz, mas tenho marido". Elas se queixam de que "os homens não querem compromisso". Elas pedem para que eles definam "a relação".
Elas buscam apresentá-lo às amigas, à família (consolidações externas do "casalzinho" são formas de garantias), pedem presentes ligados a datas (demonstrações de prestígio).
Elas gostam (mais que eles) de andar de mãos dadas, como a marcar território. Elas se interessam pelo poder e a condição financeira do homem em mira ""isso se liga à capacidade dele de ajudar e proteger. (Não é tão importante se ele é grisalho, são raros os que pintam os cabelos, ao contrário delas.)
Nos EUA, o "proposal" (pedido em casamento) é o clímax da vida da moça, quando ela recebe "the rock" (anel com diamante), símbolo máximo de garantia e prestígio.
É curioso ver que o principal ciúme das mulheres será de prestígio, e não sexual. Elas terão ciúmes da TV, do carro, do futebol, dos amigos, do computador, da filha do casamento anterior (e do dinheiro que gasta com ela).
Enfim, tudo indica que a savana africana permanece pouco alterada em nossas mentes.


FRANCISCO DAUDT, psicanalista e médico, é autor de "Onde Foi Que Eu Acertei?", entre outros livros