Mostrando postagens com marcador Antonio Prata. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antonio Prata. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de abril de 2012

Deu uma olhada na água? (Antonio Prata)







Faz parte da condição masculina enfrentar os perigos de cabeça erguida e olhos fechados



EU E ela voltávamos de nossa primeira viagem juntos, um fim de semana em Ubatuba. Vínhamos saindo havia dois meses, mas o jogo nem de perto estava ganho: a moça era dura na queda e, apesar de dar alguns sinais de interesse, ainda não parecia convencida de que eu fosse um bom investimento a longo prazo.

Paramos para abastecer e resolvi calibrar pessoalmente os pneus -menos por necessidade do que pelo gesto, que a meu ver envolvia certo charme viril. Acho que não preciso dizer, mas um cara que vê na calibragem dos pneus uma atitude máscula está mais para um Woody Allen do que, digamos, para um John Wayne. Agachado ali, contudo, sentia-me um cowboy a ajustar as ferraduras de meu cavalo e quase mascava um fumo imaginário. Minha panca, infelizmente, foi pra cucuia assim que, temeroso, ouvi a garota perguntando: "Você não quer dar uma olhada na água?".

Veja: eu não poderia jamais "dar uma olhada na água", pois não tinha a menor ideia de onde ficava a água, para que servia a água e, mesmo que a encontrasse, seria incapaz de avaliar se o nível estava alto, baixo, certo ou errado. A pergunta, no entanto, trouxe-me a incômoda suspeita de que ela estivesse acostumada a sair com caras que sabiam "dar uma olhada na água". Marlon Brandons em "Um Bonde Chamado Desejo", de calça jeans e camiseta justa, que voltavam pro carro limpando as mãos num pedaço de estopa e acendendo fósforos na sola da bota. De modo que só me restou fazer uma cara de profissional e responder, resoluto, "claro!", já abrindo o capô.

Depois de angustiantes segundos perscrutando o labirinto do motor em busca de alguma pista, finalmente encontrei algo que parecia auspicioso: uma tampinha sobre um pequeno galão, com um desenho que se assemelhava a um regador de jardim. Do bico da figura, um líquido gotejava. Ora, o que seria aquilo senão água? Como ao lado da bomba de gasolina havia um regador, muito semelhante ao do desenho, fiz a óbvia conexão mental, enchi o troço até a boca, desrosqueei a tampinha e entornei uns cinco litros pelo orifício.
Só na estrada, já subindo a serra, é que a brotoeja da dúvida começou a coçar. E se aquele galão não fosse o lugar da água? Mal a questão surgiu e descobri aterrorizado a resposta, na forma de um pequeno luminoso no painel: o mesmo regadorzinho do motor, mas, dessa vez, com legenda: óleo.

E aí? Assumir o erro era impensável. Não queria, de forma alguma, que minhas últimas palavras para aquela bela moça fossem "Desculpa, reguei o motor. Acho melhor chamarmos um guincho". O jeito era seguir em frente. E foi o que eu fiz, até que, duas horas depois, graças a Deus -e aos engenheiros da Ford, a quem mando aqui meus sinceros cumprimentos-, chegamos a São Paulo.

Imagino que tenha corrido o risco de ficar pelo acostamento, quem sabe até de fundir meu carro, mas não me arrependo: faz parte da condição masculina enfrentar os perigos de cabeça erguida e olhos fechados. Mesmo aqueles perigos que nós mesmos, por conta de nossa obtusa hombridade, nos metemos. E, convenhamos, valeu a pena: hoje a moça mora comigo e somos felizes -ou pelo menos éramos, até a publicação desta crônica.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Abril, maio, junho (Antonio Prata)



Abril? Maio? Junho? Nada começa ou finda aqui. Pelo que se anseia nesta planície? Qual clímax se vislumbra?


ABRIL, LOGO mais é maio, depois junho -e essa banal constatação me deixa um pouco desanimado. A passos largos, nos afastamos dos confetes de fevereiro, ainda não se veem no horizonte os rojões de dezembro, é como se estivéssemos presos numa longa terça-feira, incrustada na barriga do ano.
Em janeiro, há sol e sal, projetos, expectativas no ar. De fevereiro e do Carnaval, nem se fala. (Se o mundo entrasse em guerra pelos meses do ano, eu pegaria em armas para ajudar nosso país a conquistar fevereiro.) Março é um janeiro redivivo -agora vai! São lançados livros, filmes, discos e programas de TV; a gente trabalha com vontade, se matricula numa natação, olha em volta, curioso para saber o que o presente nos reserva. Julho é o meio do caminho, o auge do inverno -verão no hemisfério Norte-, férias escolares. A cidade fica vazia. Época de Copa, Olimpíada e de assistir televisão debaixo dos cobertores. Em agosto, há uma sensação de missão cumprida pelo fim do primeiro semestre e um leve anseio, bom anseio, em relação ao segundo. Em setembro, outubro e novembro, se nos colocarmos nas pontas dos pés e forçarmos a vista, já dá pra enxergar o fim do ano, ali adiante. É uma longa quinta-feira, prenhe de calma euforia. (Uma tarde, um e-mail nos pega de surpresa: um amigo diz que tá organizando o Réveillon, pensa em alugar uma casa na praia tal, busca interessados -e o cheiro de mar subitamente invade o escritório.) Dezembro é aquela correria de xixi no formigueiro: todo mundo com um olho no Windows e outro na janela, é um tal de marcar café, almoço, jantar, chope; come-se e bebe-se como se estivéssemos no século 20, num episódio de "Mad Men" -como se fosse o mundo, não o ano, que estivesse pra acabar.
Mas abril? Maio? Junho? Nada começa ou finda aqui. Espírito-Santo-hall-de-elevador-tofu-Phill-Collins. Pelo que se anseia nesta insossa planície? Qual clímax se vislumbra neste tedioso começo de segundo ato?
Eu sei, eu sei que não deveria me incomodar. Tenho a vida que pedi a Deus -ou que pediria, caso acreditasse nele e me achasse importante o suficiente para lhe fazer demandas. Nasci numa família legal, trabalho com o que gosto, tenho saúde, amigos, dei a sorte inacreditável de me apaixonar por uma mulher que também foi com a minha cara. Mas, sei lá. Talvez nós -ou eu?- só saibamos ser felizes na expectativa, nunca na realização. Eis porque fevereiro e dezembro são meus meses preferidos. Meses feitos da esperança -melancólica, é verdade, mas não o é toda esperança, afinal de contas?- de que no ano que vem, de que no bloco tal, depois de pular as ondinhas, enquanto pulamos na avenida, a vida parecerá, enfim, uma propaganda de Campari.
Já abril, maio e junho estão mais pra um daqueles encartes de supermercado que vêm no meio do jornal: a foto de uma costelinha de porco crua sobre uma pálida folha de alface, umas latas de cerveja barata, um azeite ou detergente em promoção. A vida como ela é, em velocidade de cruzeiro e sem efeitos especiais.
Eu sou uma besta de ficar reclamando, eu sei, mas, poxa: abril, maio, junho, dá um desânimo...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Grave, o recado (Antonio Prata)


Descobri que a birra com relação a deixar recado no celular é consensual, quase falta de educação

Descobri por esses dias que deixar recado no celular saiu de moda. Pior, tornou-se quase falta de educação, algo assim como pedir dinheiro emprestado ou mordida de sanduíche.
Fiquei sabendo desta nova cláusula da etiqueta ao ligar para uma amiga, advogada. Ela não atendeu, entrou a gravação e eu já estava pensando em alguma gracinha para dizer, uma dessas bobagens inúteis e carinhosas que regalamos às pessoas queridas -como um bombom que se larga na mesa de uma colega de trabalho, na volta do almoço-, quando dei com as torpes palavras: "Oi, aqui é a Mariana, POR FAVOR, NÃO DEIXE RECADO, prefiro que me mande uma mensagem de texto".
Eu, ingênuo, achei que o problema era da Mariana. Tadinha, tá trabalhando muito, ralando ali naquele balcão de tragédias que é o exercício do direito; normal que, em nome de causas maiores, tenha deixado para trás os pequenos prazeres da vida. Como não queria ser responsabilizado pela condenação de inocentes ou pela absolvição de criminosos, desliguei o telefone antes do bip e esqueci o assunto.
Até que, anteontem, liguei para um amigo músico. Vejam bem: mú-si-co. E não é que ouvi o mesmo desaforo? "Oi, aqui é o Jaime, NÃO DEIXE RECADO, me manda um SMS ou um e-mail e eu te respondo, tá?". Não, Jaime, não tá. O que é isso, companheiro?! Cê é controlador de voo? Motorista de ambulância? Vendedor de amendoim em final de campeonato? Não; então não enche o saco e ouve meu recado, que eu te conheço desde o jardim 2 e acho que mereço 27 segundos de seu tempo, cazzo!
Fossem só a Mariana e o Jaime, tudo bem, mas assuntei por aí e descobri que a birra é consensual. "Se o bina nos informa quem ligou e o SMS e o e-mail dão conta de qualquer mensagem, pra que perder tempo escutando aquela ladainha?", dizem.
Realmente, tem sua lógica. Sugiro, aliás, aplicá-la a outras esferas do comportamento humano, de modo deixar nosso cotidiano mais eficiente. Por exemplo: se já existem vitaminas em pílulas e carboidrato em gel, pra que fazer uma refeição? Ou; uma vez inventada a inseminação artificial, vamos parar com esse arcaísmo de botar-se nu sobre outra pessoa, igualmente nua, e ficar indo, vindo e grunhindo? Céus, que época para se viver!
Não, talvez não seja a época, mas a idade em que me encontro, em que se encontra a maioria das pessoas com quem convivo: 30 e poucos anos. Essa presunção estúpida de que cada um de nós é uma engrenagem fundamental na máquina do mundo, elo importantíssimo no processo de fritura do torresmo.
Estou fazendo graça; sinto-me um tanto hipócrita. Não fujo à regra. Também ando por aí, afobadinho e ansioso, querendo otimizar meu tempo, com raiva dos outros sempre que se tornam obstáculos à plena realização das minhas capacidades produtivas.
Que ridículo. No fim das contas, o único momento em que seremos 100% produtivos, em que nem uma célula será desperdiçada e nem uma caloria gasta em vão, é quando virarmos adubo para o capim do cemitério. E nessa hora, meus caros, enquanto estivermos devolvendo ao cosmos a energia que nos foi brevemente emprestada, não precisaremos nos preocupar: ninguém vai telefonar para atrapalhar nosso trabalho. Ou melhor, o das minhocas.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

'Felicidade sim' (Antonio Prata)


Vivi por 34 anos sob o jugo do chuveiro elétrico. Ah, lastimável invento! Já gastei mais de uma crônica amaldiçoando seus fabricantes; homens maus, que ganham a vida propagando a falácia da temperatura com pressão, quando bem sabemos que, na gélida realidade dos azulejos, ou a água sai abundante e fria, ou é um fiozinho minguado e escaldante, sob o qual nos encolhemos, cocuruto no Saara e os pés na Patagônia, sonhando com o dia em que, libertos das inúteis correntes (de elétrons), alcançaremos a terra prometida do aquecimento central.
Reclamo de barriga cheia? Sem dúvida. Há problemas bem mais sérios neste mundo, mas sejamos honestos: a morte do vizinho não anula a minha dor de dente -e um banho ruim é dez vezes mais triste que uma dor de dente. Afinal, um molar, quando para de doer, não é capaz por si só de nos dar alegria. Já o banho, quando é bom... Que contentamento uterino é ter a pele envolvida por água abundante, sentir o jorro de 50ºC, no auge do inverno; orgasmo da epiderme!
Dizem os psicanalistas que, quando pequenos, temos prazer em cada centímetro do corpo. Com o passar do tempo, contudo, também a pele vai sendo adestrada, e a libido acaba restrita às "red light zones" de nossas íntimas moradas. Eis a nossa sina, buscar em vão o Éden perdido: na mulher amada, nas religiões, nas drogas, ou -por que não?- numa ducha quente.
Durante a infância, ouvia minha mãe reclamar do banho e lamentar, frustrada, que não valia a pena fazer reforma numa casa alugada. Aos 20, fui morar sozinho e vi-me repetindo o mesmo discurso; vicissitudes do inquilinato. No mês passado, contudo, depois de ter casado, juntado os trapos e os FGTS, conseguimos um financiamento e atingi, ao mesmo tempo, o sonho da casa própria e do aquecimento central.
Com um boiler pra chamar de meu, pensei, meus problemas haviam acabado. Toda melancolia escorreria pelo ralo. Cheguei a imaginar que a metafísica não fosse, como disse o asno de Sancho Pança, uma decorrência do estômago vazio, mas do incômodo térmico: não seriam os pés frios a razão de querermos anular o corpo e inventar outras realidades -mais morninhas? Houvesse aquecimento central na idade da pedra, teríamos necessitado dos deuses? Tivesse Descartes um bom chuveiro, talvez não desconfiasse tanto dos sentidos, a ponto de afirmar que só pelo pensamento podia afirmar sua existência.
Pois bem, mudei-me: por 29 dias e 29 noites, fui feliz como um bebê no líquido amniótico. Se, no meio da tarde ou da noite, o tédio ou a tristeza me visitavam, lembrava do último banho, imaginava o próximo e sorria, satisfeito. Até que, na trigésima manhã, esta manhã de terça, da qual jamais me esquecerei, peguei-me sob a ducha quente pensando numa conta atrasada e resmungando sobre a fila do banco. O banho virara apenas mais um acontecimento banal, feito escovar os dentes ou cortar as unhas, e entendi, alheio à pressão e à temperatura, que nenhuma felicidade sobrevive à repetição. Trinta e quatro anos desejando; 29 dias para perder a graça. Estranha é a matemática da vida.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mudança (Antonio Prata)




Do que é feita a vida senão dos andaimes que usamos para construirmo-nos? Eles nos sobreviverão


DO FUNDO da gaveta, numa foto de 1991, minha primeira namorada me sorri. No verso, em tinta rosa, diz que me ama "pra sempre!!!". Eu também a amei para sempre e com muitas exclamações, por seis meses e alguns amassos, na distante oitava série -até um recreio em que, não lembro exatamente por qual motivo, resolvemos "dar um tempo", num canto da quadra poliesportiva. O tempo dura até hoje. (Alguém me disse, outro dia, que ela é procuradora do Estado. Duvido que ainda use canetinhas cor-de-rosa.)
De uma pasta, surge uma prova de história sobre o feudalismo, o cartão-postal de um amigo, de Amsterdã, uma agenda de 92. Dia 23 de maio: "Niver da Ju B.!!! Não vai esquecer, hein?!". Por onde andará aquele amigo? Quem era mesmo a Ju B., hein?
Numa caixa de charuto, papéis e guardanapos cheios de projetos da última década e meia. "Revista de jornalismo literário. Arte: Ciça. Textos: Antonio, Chico, Nirla, Fred, Paulo." "Ideia de romance: paulista toma pé na bunda e cai no carnaval do Rio". "Sitcom: bar frequentado por artistas que não emplacam, tendo que sobreviver de atividades paralelas".
Cercado por aqueles achados arqueológicos, escavados de diferentes camadas sedimentares do meu apartamento, reflito sobre o que levar para a casa nova, o que jogar no saco de lixo azul. Um lado, nostálgico, agarra-se ao conteúdo das gavetas: é minha vida, meu passado, é preciso guardá-lo. Outro lado, o prático, provoca: "guardá-lo por quê? Em que situação você desenterrará as cartas de ex-namoradas, cartões-postais de quem já não vê há 20 anos, projetos que não concretizou, nem concretizará?"
Não interessa a utilidade desses fósseis, digo à minha sanha sanitarista: é dos momentos representados por eles que somos feitos. "Pois o feito, feito está", retruca o pragmático: "todo o conteúdo dessas gavetas não são mais que andaimes de teu edifício. Para que preservá-los?"
Ora -defendo-me-, e do que é feita a vida senão dos andaimes que usamos para construirmo-nos? Aliás, eles nos sobreviverão. Vão-se os dedos, ficam os anéis, eis a triste verdade. O utilitarista insiste, agora com arroubos de sarcasmo: "Exato!
E se mesmo você uma hora será descartado, de que valerão todos esses bricabraques?".
Ah, inclemente faxineiro! Não percebe?! É justamente a certeza de que nos vamos que obriga a nos agarrarmos ao que fomos! "Você está se repetindo", diz o chato. "Já escreveu isso em outra crônica, dia desses." Pouco me importa. A repetição não é necessariamente um defeito. Veja Woody Allen. Nelson Rodrigues. Vonnegut. Rubem Braga.
Só temos duas ou três coisas a dizer sobre a vida e as vamos reconfigurando, polindo, tentando clareá-las ao longo do tempo. Para isso, aliás, servem esses andaimes, cacarecos recolhidos nas andanças: pontuam o caminho, amenizam a falta de sentido da linha de chegada.
Decido: levarei tudo comigo. De madrugada, o caminhão de lixo mastigará apenas os canhotos dos talões de cheque, velhas contas de luz e declarações do imposto de renda. Amores eternos, mesmo os mais fugazes, amigos que perdemos e os sonhos antigos devem permanecer sempre conosco: senão no fundo do coração, ao menos no fundo de uma gaveta.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Twitter, Facebook e o Apocalipse (Antonio Prata)




Vamos admitir: desde que inventaram o Facebook e o Twitter que ninguém mais trabalha, só finge

AS COISAS não vão nada bem no hemisfério Norte. A Grécia foi pra cucuia, Portugal e Espanha estão no vinagre, e, na Irlanda, os únicos habitantes que fizeram alguns caraminguás em 2011 foram os quatro integrantes do U2. Até os EUA, quem diria, ameaçaram dar um calote global, o que levou a agência Standard & Poor's a divulgar que a grande potência está mais pra "poor" do que pra "standard".
Diante dos abalos econômicos e da ameaça de recessão mundial, acusam-se os suspeitos de sempre: a esquerda vê o fim do capitalismo, a direita vocifera contra a ineficiência do Estado. Eu, contudo, cronista independente, sem outro compromisso senão com a verdade -e com minha pequena, claro-, sei que a culpa não é dos negociantes nem dos políticos: a culpa, meus caros, é das mídias sociais.
Vamos admitir: desde que inventaram o Facebook e o Twitter que ninguém mais trabalha, só finge -uma hora, ia dar problema. Se o hemisfério Norte quebrou antes de nós é porque se enredou primeiro nessas arapucas do Demônio, mas não demorará para nos estrumbicarmos também: afinal, o dia-padrão de um trabalhador brasileiro não é tão diferente do de um americano ou europeu.
Vejamos: você chega ao trabalho, senta-se diante do computador e, antes de começar suas tarefas, resolve dar uma checada rápida na "homepage". A "home" traz uma fofoca sobre o comportamento sexual de uma cantora pop, e você imediatamente pensa numa bobagem para tuitar. Abre o Twitter, escreve.
Passa então a clicar, de dez em dez segundos, no "your tweets retweeted" -como um ratinho de laboratório, acionando a barra de glicose-, pra ver se gostaram da sua piada. Infelizmente, em 15 minutos, só um retuíte. Você decide preencher a carência que subitamente lhe bateu indo até o Facebook: vai que alguém lhe deixou um recado, na madrugada? Nada, ninguém quis lhe dizer coisa alguma nas últimas 12 horas.
Você descobre, contudo, que a Juliana Pereira, sua ex-colega de ginásio, postou as fotos do feriado, na praia.
Você se lembra dessa Juliana, era bonita, e quando dá por si está há uns três minutos vasculhando as imagens da moça, na esperança algo adolescente, algo senil, de vê-la de biquíni. Não achando nada além de filhinhos sorridentes e uma ou outra foto artística de conchas, com efeitos gráficos do iPhone, decreta que é, enfim, hora de começar a trabalhar. Mas, já que ficou tanto tempo no Facebook, por que não dar só uma passadinha no Twitter, ver se, nesse meio tempo, alguém te retuitou, ou comentou seu tuíte? Nada, ainda, mas um amigo colocou um link para uma propaganda belga de cerveja, muito engraçada. Quando vai ver, já está na hora do almoço, e o dia nem começou.
Agora, caro leitor, some todo o tempo que você tem perdido nessas inúteis perambulações virtuais ao tempo de todos os outros milhões de internautas, calcule o prejuízo em dólares, euros ou reais, e o resultado é uma bela recessão global. Reajamos enquanto é tempo: ou a gente acaba com as mídias sociais, ou as mídias sociais acabam com a gente!
PS- Meu amor, a história da Juliana Pereira é meramente ilustrativa, real apenas no terreno da ficção. Espero que compreenda.

sábado, 9 de julho de 2011

Os bacharéis de Paraty (ANTONIO PRATA)


O NEUROCIENTISTA Miguel Nicolelis cometeu um erro crasso em sua palestra, na quinta-feira: explicou as coisas mais complexas do mundo de forma simples e compreensível. O establishment cultural torceu o nariz. Nicolelis foi chamado de populista, simplificador, acusado de "jogar para a torcida".
Talvez, por ter morado muitos anos nos Estados Unidos, o professor tenha se esquecido de que, por aqui, o trabalho de um intelectual é justamente o contrário: dizer as coisas mais elementares de maneira empolada e abstrusa, dando ao público a sensação de ser duplamente inteligente: primeiro, ao conseguir decodificar o murundu; depois, ao descobrir que as ideias dentro do embrulho eram exatamente iguais às que ele já tinha, pelo senso comum.
O neurocientista Miguel Nicolelis cometeu um segundo erro crasso.
Falou de suas pesquisas de modo apaixonado, chegou a lacrimejar quando mencionou a possibilidade de alguém voltar a andar por conta de suas descobertas. Ora, não sabe Nicolelis que, por aqui, emoção é coisa de menina? O homem cultivado é blasé, já viu tudo e desencantou-se; o mundo, seu objeto de estudo, só é tocado envolto por três camadas do Magipack da ironia.
No fim, Nicolelis cometeu o último e imperdoável erro: falou bem do Brasil. Enalteceu o passado, lembrando-se de Santos Dumont, e imaginou um futuro glorioso. Risadinhas sarcásticas ecoaram na plateia.
Nicolelis é tido com um gênio pelo MIT, pela revista "Science", talvez ganhe um Nobel. Mas, ao que parece, ainda não está à altura dos bacharéis de Paraty.


ANTONIO PRATA publicará crônica diária de Paraty ao longo da 9ª Flip.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O sustinho (Antônio Prata)




O sustinho está por todo lado; brota, às vezes, da necessidade que a pessoa tem de ser chata



DENTRE AS inúmeras manifestações da hipocrisia, a que mais me irrita é o sustinho. Trata-se daquele falso assombro interrogativo com que certas pessoas nos encaram ao ouvir uma pergunta que, embora tenham entendido, não foi feita de maneira precisa.
Um exemplo: você está no supermercado, chega pro funcionário da área de verduras e pergunta: "amigo, por favor, sabe se aqui vende aqueles tomatinhos?". Claro que o nome oficial do produto não é "tomatinho", é tomate cereja, mas você se esqueceu da palavra e não achou que fosse necessário revirar os rincões da memória atrás dela: afinal, se o sufixo "inho", em nosso idioma, caracteriza o diminutivo, e os tomates cereja são a menor variedade do rubro fruto, não é preciso ser nenhum gênio para concluir que tomate + inho = tomate cereja. O funcionário do mercado, contudo, é um adepto deste pequeno jogo de dissimulação, o sustinho, e não perde a chance de praticá-lo, soltando um "Ãhm?!" estarrecido, como se você houvesse pedido elefantinhos, pergaminhos ou uma massagem tailandesa. 
Ciente de que o sujeito entendeu e só está querendo implicar, te ocorre a ideia de não se render: bater o pé no chão e dizer "tomatinhos, sim senhor! E tire essa expressão de asco do rosto, impostor, pois sabe exatamente do que estou falando! Se não parar com essa palhaçada já, te acertarei com uma abóbora japonesa!". 
Pensando melhor, no entanto, você decide evitar a discussão, fugir da briga. Aceita o jogo do verdugo verdureiro e reformula a pergunta, contrito: "aqueles tomates pequenos, redondos, assim, ó, que vêm numa caixinha de plástico, sabe?". Percebendo que você se submeteu e fez seu mea culpa, o falsário simula um alumbramento: "ahhhhhhhhhh! Tomate cereja! Por que não disse antes?! Ali, ó, embaixo das berinjelas". 
O sustinho, meus caros, está por todo lado. Nem sempre, aliás, brota de uma pergunta malfeita. Às vezes é só uma necessidade que a pessoa tem de ser chata. Você para o carro próximo à guia e pergunta: "por favor, como eu chego na Rubem Berta?". Todo assombrado, o pedestre rebate, "Rubem Berta?!", e por um instante você acha que está do outro lado da cidade. Mas, assim que ele te explica o caminho, você vê que está perto, é logo ali, era só sustinho, mesmo. 
Infelizes daqueles que têm chefes chegados num sustinho. Não importa o que você pergunte ou sugira, ele sempre responde de bate pronto, com um "Ãhm?!" preventivo. Não é que não tenha ouvido ou não tenha gostado, ele apenas quer mostrar que manda ali e, portanto, tem direito a essa farpa de sadismo. Há pessoas que, de tanto usarem o sustinho, acabam viciadas, não conseguem ouvir um "que horas são?" sem arregaçar os beiços e emitir seu "Ãhm?!" mini-horrorizado. 
Muito triste, meus amigos, o sustinho: não só por tratar-se de uma pequena agressão, um peteleco no lóbulo de nossa fé na humanidade, mas sobretudo porque usa as roupas e a maquiagem do verdadeiro espanto, da surpresa genuína, que mesmo em pequenas doses são sinal de saúde da alma e abertura do espírito -bem diferentes dessa falsa careta de incompreensão que infelizes esculpem em seus rostos com o único intuito de dividir conosco um pouco de suas amarguras. 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Nostalgia (Antonio Prata)




Passado é a matéria da qual somos feitos; nostalgia não é necessariamente uma visão empobrecedora da vida


A NOSTALGIA NÃO é um dos sentimentos mais em voga na praça. Talvez porque, como já escrevi noutra crônica, ela seja uma espécie de caldo Knorr emocional: um tempero artificial, mistura de esquecimento com saudade, que garante cor e sabor a situações que, quando vividas, lá atrás, nem foram assim grande coisa.
Há também, acredito, outra razão para a desvalorização da nostalgia: por voltar nossos olhos ao passado, ela atua como uma âncora, impedindo o movimento "para o alto e avante", direção na qual nos empurram os impulsos mais de acordo com o nossa época: a ambição, a ganância, a curiosidade.
Eu tenho cá minhas ambições, minha ganância, muita curiosidade, mas confesso que levo sempre no bolso dois ou três tabletes de nostalgia. Não por pensar que o passado seja melhor que o porvir -torço pelo contrário; acredito no contrário-, mas porque o passado é a matéria da qual somos feitos; é só o que temos. Se pudermos optar, melhor conservá-lo mergulhado em poesia do que protegido por naftalina, não?
Ao contrário do que alegam seus detratores, a nostalgia -pelo menos, a vertente que eu pratico- não é necessariamente uma visão empobrecedora da vida. Fellini nada em rios de nostalgia e, no entanto, ninguém pode acusar "Amarcord" ou "8 e «" de edulcorarem a infância, pode? A violência está lá, a confusão, o desamparo. Mesmo assim, tudo é belo, trabalhado pelas mãos do grande artista.
Pragmático leitor, sejamos nostálgicos! Se não estivermos um tanto bêbados, de vinho ou poesia, como sugeriu Baudelaire, a vida vira um mero trajeto do pó ao pó, com escalas por unhas encravadas e planilhas Excel. Sem um mínimo de trapaça no olhar, nada resiste a um exame mais apurado. Roma é uma gritaria em meio a ruínas. Napoleão, um baixinho nervoso. Marilyn, uma bêbada chata. Muito provavelmente, Fellini nunca teve um tio doido e narigudo que subiu numa árvore, os bolsos cheios de pedras, gritando "Eu quero uma mulher! Eu quero uma mulher!", até ser resgatado por uma freira anã. Por isso temos a arte, para isso a nostalgia; para transformar o Miojo sem graça de nossas existências em algo mais próximo das "fotos ilustrativas" das embalagens, enfiando douradas coxas de frango e tenros filés onde havia somente farinha de trigo e gordura vegetal hidrogenada.
Penso essas coisas todas porque, em algumas semanas, mudo-me deste apartamento. Agora mesmo, enquanto escrevo, percebo-me melancólico como o diabo, olhando as paredes ou os vasos da varanda como uma paisagem da janela de um trem.
Passei aqui uma década. Cheguei com 23 anos -um aparelho 3x1 que ainda rodava as fitas gravadas na adolescência-, saio com 33 - previdência privada e alguns fios de barba branca. Debaixo deste teto, escrevi quatro livros, briguei com um amigo, fiz as pazes, tive o coração partido e colei seus pedacinhos.
Aqui, reencontrei o amor, casei e daqui me mudo, para uma casa maior, como convém, com um quintal e um gramado, onde correrão meus futuros filhos e os rios de nostalgia que, em seu devido tempo, brotarão por entre as plantas.