sábado, 4 de agosto de 2012

Quem traiu Lula? - NELSON MOTTA



É um dos grandes mistérios da República, a pergunta que não quer calar, o enigma que os futuros historiadores enfrentarão: de quem falava Lula, em rede nacional, quando se disse traído e pediu desculpas aos brasileiros pelo mensalão?

Quem diz que daria um cheque em branco a Roberto Jefferson não pode reclamar de ser traído. Mas o seu traidor não foi Jefferson, porque estava ocupado em vingar a traição de que se sentiu vítima quando a PF detonou o esquema de propinas do PTB nos Correios.

Quem tem Zé Dirceu como seu principal aliado, numa relação de amor e ódio de 30 anos, não deve se surpreender com uma traição. Basta imaginar o que faria o Zé para chegar à Presidência, caso Lula fosse um obstáculo. Mas Dirceu pediu pra sair, para não trair Lula. Se ele sabia do mensalão e não contou para Lula, não foi traição, mas proteção. Dirceu é muito protetor.

Quem tem Valdemar Costa Neto na sua base de apoio deve estar acostumado a achaques, chantagens e traições. Mas o pragmático Valdemar não seria burro de trair quem o beneficiava e acabou traído pela ex-mulher, que o denunciou por receber malas de dinheiro do mensalão.

Quem foi o Judas do Cristo Lula? Deve ser alguém próximo, em quem ele confiava, com quem compartilhava sonhos e segredos e tinha relações afetuosas. São esses que têm poder para grandes traições, e são essas que mais doem e causam maior dano; as outras, de aliados e correligionários, são corriqueiras, na política a traição faz parte do jogo ao sabor dos acontecimentos e ninguém reclama.

Mas, fora do círculo íntimo, Genoino, Gushiken, Gilberto Carvalho, quem poderia trair Lula? O companheiro Delúbio assumiu suas responsabilidades e as alheias, e continua merecendo a gratidão de Lula e o carinho de ser chamado de "nosso Delúbio". Tiradentes não chamaria de "nosso Silvério" o traidor da Inconfidência.

A conclusão só pode ser que quem traiu Lula foi ela, "a mídia". Ele contava com seu apoio, compreensão e tolerância para o primeiro operário a chegar à Presidência da República, mas foi traído por notícias ruins, denúncias graves e críticas devastadoras.


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

ANTONIO PRATA - Nascimento: FAQ



Como faço para voltar pro útero? Infelizmente, não existe essa possibilidade. Não existe mesmo? Não

1. Por que me tiraram do útero?
Você nasceu! O útero era só um breve estágio em que seu corpo estava sendo formado. A vida mesmo é aqui fora, na luz: seja bem-vindo e aproveite!
2. Como faço para voltar pro útero?
Infelizmente, não existe essa possibilidade.
3. Não existe mesmo?
Não.
4. O que eu estou fazendo aqui?
Essa pergunta é passível de muitas respostas. Religiosos acreditam que a vida é um presente de Deus. Ateus afirmam que não há exatamente uma razão para existirmos e que tudo é fruto do acaso e da seleção natural. Ao longo do seu percurso você descobrirá para que lado pende seu coração e poderá até mesmo criar uma explicação própria para a incrível jornada que se inicia agora!
5. O que é aquela coisa redonda, quente e macia que vira e mexe põem na minha boca e contém um líquido delicioso?
Chama-se seio. O seio é parte do corpo de uma mulher. A mulher chama-se mãe. Mãe é a principal encarregada por você nos primeiros anos de vida. (Mais info. nos formulários Mãe: FAQ I, II, III, IV e V).
6. Como faço para que a mãe venha e ponha o seio na minha boca quando eu estiver com vontade?
Chore. Esgoele-se o mais alto que puder que a mãe costuma aparecer.
7. Posso ter o seio quantas vezes quiser, a qualquer hora do dia ou da noite?
Teoricamente, sim, mas isso varia de mãe para mãe.
8. Quem é aquele cara que geralmente aparece ao lado da mãe e fica ali sem fazer nada, com um sorriso abobalhado?
Chama-se pai. Ele é responsável por metade de sua carga genética. Realmente, é meio inútil neste começo, porém mais tarde ajudará bastante em sua criação. (Ver Pai: FAQ I e II).
9. Ele tem seio?
Não. Embora tenha mamilos, fato que até hoje intriga os evolucionistas, mas isso absolutamente não vem ao caso.
10. Além do seio, tem algo mais que preste do lado de cá do útero?
Ah, impossível enumerar todas as delícias desta grande aventura! Em breve você conhecerá a manga e o cafuné, o mar e a bicicleta, os livros, os esportes, o amor, a música, o sexo... Prepare-se, você vai se divertir a valer!
11. Vou ter mais alguma experiência traumática ou a saída do útero foi o fundo do poço?
Bem, em algum lugar adiante está a morte.
12. O que é a morte?
O fim da vida.
13. E, depois da morte, não tem nada?
Eis mais uma pergunta passível de muitas respostas. Religiosos acreditam que a vida continua, incessantemente, seja em outro plano ou neste aqui, através de reencarnações. Ateus dizem que não: a morte é mesmo o limite.
14. Não tem mesmo como voltar pro útero?
Não.

domingo, 29 de julho de 2012

Encurtando... - Martha Medeiros



 “Passado e o futuro são dois períodos que já não interessam: cultua-se o presente como nunca. O que vale é este momento, agora, o instante vivido. Tudo digitalizado, virtual, instantâneo”


Quanto tempo leva para superar a dor da perda? Quanto tempo para digerir uma rejeição? Absorver que um sonho terminou? Esquecer uma frustração? Uma mágoa de infância? Um trauma? Uma demissão? Os psicanalistas provavelmente responderão que é preciso respeitar o ritmo de cada um. Há quem seja rápido na retomada da vida,  há os mais lentos, que necessitam de um acompanhamento mais intensivo. Não há como decretar: dois dias, dois meses, dois anos.

Só que a maioria da população não procura psicanalistas. Não tem dinheiro pra isso, e muito menos disponibilidade. As pessoas não podem parar no meio do dia para se consultar, pois trabalham insanamente, e tampouco possuem tempo para, segundo elas, desperdiçar. Sabe-se que análises são demoradas, que buscam e rebuscam nossa intimidade, que não é num estalar de dedos que se atenuam as dores internas. E qualquer coisa que demore, hoje em dia: não, obrigada.

Que inquietação. O passado e o futuro são dois períodos que já não interessam: cultua-se o presente como nunca antes. O que vale é este momento, agora, o instante vivido. Tudo digitalizado, virtual, instantâneo. Quem ainda espera dias por uma resposta? Meses por uma solução? Na vida burocrática, governamental, a demora ainda é praxe e se vale da morosidade para arrecadar mais e mais dinheiro, mas no plano pessoal, encurtaram-se as durações. Vive-se tudo de forma mais compacta, o começo e o fim mais próximos do que jamais foram. E acabamos impregnados dessa urgência, dessa vontade de resolver todas as tranqueiras com a maior agilidade possível.

Porém, há tranqueiras e tranqueiras.

Você consegue resolver pendências profissionais de imediato, consegue tomar decisões práticas sem se alongar: parabéns. Salve a produtividade. Mas não foram essas as questões levantadas no início desse texto. Falávamos de tristezas, de cicatrizar feridas, de aceitar o destino que nos coube, de assimilar mudanças. Sentimentos não são regidos por megabytes por segundo, não se vinculam a relógios, não obedecem a leis objetivas — é o curso da natureza que manda. E a natureza é surda e cega para o desatino. Exige a introspecção devida, sem a qual nada se resolve, só se mascara.

Diante da dor emocional, só há uma ordem a respeitar: paciência. De nada adianta inventar alegrias fajutas e se oferecer para a cobiça do mundo sem antes estar com a alma serenada e forte. É preciso saber esperar, do contrário a gente se atrapalha e só reforça a miséria existencial que preenche as madrugadas. Basta de tanta gente evitando pensar, evitando chorar, evitando olhar para dentro de si mesmo, sorrindo de um jeito tão triste que só faz demorar ainda mais o reencontro com o sorriso verdadeiro — aquele aguardando a hora certa de voltar. 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

MARTHA MEDEIROS - Pequenas felicidades



- Cachorro-quente. 

- Na esteira de bagagens do aeroporto, sua mala estar entre as primeiras a aparecer. 

- Receber notícias de um amigo de que você gosta muito e que andava sumido. 

- Ter recebido de presente a série inteira de Mad Men para assistir atirada no sofá. 

- Numa loja de CDs usados, por um preço irrisório, encontrar discos de Keith Jarret, Tom Waits, Chet Baker e Miles Davis que você já teve em vinil e estupidamente se desfez. 

- Livros. Encantar-se por um autor que você não conhecia. 

- Num restaurante com os amigos, a última rodada ser brinde da casa. 

- Dentro do cinema, não haver ninguém conversando e fazendo barulho com papel de bala e saco de pipoca. 

- Revistas TPM, Lola, Bravo, Elle, Vogue, Joyce Pascowitch – revistas de moda, cultura, entretenimento e decoração são sempre um luxo acessível, uma fantasia necessária. 

- Lareira. 

- Sair bem na foto. 

- Passar um fim de semana no Rio. 

- Um bom programa de entrevistas na tevê. 

- Uma consulta altamente proveitosa na terapia. 

- Flores, folhagens, jardins, árvores, montanha. 

- Acertarem no presente. 

- Taxista que não corre. 

- Prazos de validade bem visíveis nos produtos perecíveis. 

- Banho quente. Sem pressa pra sair. 

- Declaração de amor de filho. 

- Declaração de amor do seu amor. 

- Conversar longamente com sua melhor amiga. Tomando um vinho tinto, melhor ainda. 

- Alguém encontrou e devolveu a carteira que você havia perdido com todos os documentos dentro. 

- Barulho de chuva antes de dormir. 

- Dia de sol ao acordar. 

- Massagem. 

- Receber um elogio profissional de alguém que você admira muito. 

- Subir na balança e descobrir que emagreceu. 

- Check-up que não acusa nenhum distúrbio de saúde. 

- Lembrar detalhes de um sonho bom. 

- A vibrante pulsação de um show ao vivo. 

- Biografias bem escritas de personalidades interessantes. 

- Praia com mar de cartão postal. 

- Festa boa. 

- A luz voltar. 

- Um dinheiro extra que você não estava esperando. 

- Beijo. 

- n Sair do dentista ouvindo a recomendação de voltar só dali a um ano. 

- Uma noite bem dormida. 

- Ter concluído satisfatoriamente todas as pendências da semana. 

- Seu time fazer o gol decisivo no último minuto do jogo – é preciso sofrer um pouquinho na vida. 

- Coca-Cola. Bombom. Pão com manteiga. Queijo. 

- Chorar de rir. 

- Quitar uma dívida. 

- Rever as obras de um pintor de que você gosta muito. 

- Seu cachorro de estimação. Seu gato aninhado em seu colo. 

- Identificar suas próprias pequenas felicidades e, mesmo nem tudo dando certo, gostar da vida que leva.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A sorte de ser feio - Fabrício Carpinejar


As pessoas me chamam de feio, na verdade é uma promoção. Antes me chamavam de ET, agora  tomei a forma humana. E ainda perguntam como estou casado com uma mulher linda. Simples, mulheres lindas têm mau gosto e feios têm bom gosto.

Ser feio tem inúmeras vantagens e benefícios, pode perguntar ao Woody Allen:

- O feio é inesquecível, você olha uma vez e o choque é tão grande que guarda para sempre.

- Amor à primeira vista é para os bonitos. Para os feios, é amor ao primeiro trauma.

- Mais fácil se apaixonar pelo feio. Você não entende como ele nasceu assim, pede um prazo maior. O feio é um enigma, uma charada. Mulher abandona o homem quando entende rápido.

- O feio não é preguiçoso no relacionamento, não vai perder tempo ajeitando o cabelo e se olhando no espelho.

- O feio traz as melhores conversas. Ele depende da lábia para garantir a distração da mulher.

- O feio não envelhece, só melhora com o tempo. Diferente do bonito, que ficará um dia feio.

- Não, o feio não melhora com o tempo, você é que se acostumou com ele. Um feio conhecido torna-se simpático. Um feio desconhecido é apenas feio.

- Todo feio é engraçado, aprendeu a rir de si mesmo. Não conheço feio mal-humorado.

- O feio é educado, pois sofreu muito com a falta de educação dos outros,

- O feio não reclama, está sempre satisfeito. Quem reclama é o bonito, insaciável com os elogios.

- O feio gosta muito de seu nome, foi obrigado a suportar tudo o que é apelido,

- O feio é uma apoteose na cama, Sapucaí dos lençóis. A excitação feminina cresce com o medo.

- A mulher nunca se entedia com o feio, leva susto cada manhã.

- O feio é prático, já se acorda pronto, não precisa se arrumar.

- O feio apresenta uma maior resistência emocional, é capaz de ser um grande parceiro nas crises e usar a criatividade nos piores momentos.

- Ninguém duvida da masculinidade do homem feio. Já o homem bonito demais parece uma mulher.